Na madrugada de 1º de maio de 1962, Dia do Trabalho, o corpo de um homem foi encontrado à beira da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com 13 tiros. 

Era José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, apelido que ganhou por ter nascido em Minas Gerais. 

Mineirinho morava no Morro da Mangueira e tinha uma longa ficha criminal, com assaltos ousados, fugas e ataques contra policiais. 

O que mais chamava atenção era que nenhuma prisão conseguia segurá-lo: ele foi preso três vezes, duas em cadeias e uma no Manicômio Judiciário, e fugiu de todas. 

Na última fuga, em 23 de abril de 1962, saiu do manicômio jurando que nunca mais voltaria à prisão para cumprir sua pena de 104 anos.

Os moradores da Mangueira o ajudavam a escapar da polícia. 

Apesar dos crimes, Mineirinho era visto por parte da comunidade como um Robin Hood, pois usava o dinheiro dos assaltos para ajudar os mais pobres. 

Enquanto era protegido no morro, causava medo na classe média e na elite carioca.

Quando ele morreu, os moradores da favela ficaram revoltados com a morte de quem consideravam seu protetor.

E por que a polícia o queria morto a qualquer custo? Porque Mineirinho tinha virado uma humilhação para ela. 

Ele enfrentava policiais, fugia de tudo e era aplaudido no morro. 

Para os estudiosos do caso, essa rebeldia não podia ficar sem punição, e pegá-lo, vivo ou morto, virou questão de honra. 

Depois da fuga do manicômio, quase 300 homens passaram a persegui-lo, numa operação comandada pelo detetive Milton Le Cocq, considerado o melhor da polícia carioca na época. 

Oito dias depois, Mineirinho estava morto 13 tiros.

Os jornais contaram que ele tinha no bolso uma oração de Santo Antônio e um recorte de jornal sobre seu último tiroteio com a polícia, e que os tiros atingiram suas costas, pescoço e peito. 

O último foi dado à queima-roupa na perna esquerda, que já estava quebrada, como provava a calça queimada. 

O corpo levado para outro lugar para disfarçar o assassinato. Quando os moradores pobres foram até o local, a polícia não deixou ninguém se aproximar.

É aí que entra Clarice Lispector, uma das maiores escritoras do Brasil. Ela leu as notícias e ficou profundamente abalada. 

Em junho de 1962, publicou na revista Senhor um texto sobre o caso, com o título "Um grama de radium – Mineirinho". 

O que chocou foi o ponto de vista dela: Clarice não defendeu os crimes, mas se perguntou por que a morte de um bandido doía tanto nela, e escolheu contar os 13 tiros em vez de contar os crimes dele. 

Ou seja, ela olhou para Mineirinho como um ser humano e questionou se a justiça precisava daquela violência toda. 

Numa entrevista à TV, anos depois, resumiu tudo dizendo que "uma bala bastava, o resto era vontade de matar". 

E, pouco antes de morrer, quando perguntaram qual era seu texto preferido, ela citou justamente o que escreveu sobre um bandido.

A história ainda teve um desdobramento: o detetive Le Cocq, que comandou a caçada de Mineirinho, foi morto em 1964 pelo bandido Cara de Cavalo, e sua morte deu origem ao Esquadrão da Morte do Rio. 

Mineirinho virou filme em 1967, "Mineirinho, Vivo ou Morto", dirigido por Aurélio Teixeira.

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