UM POSTO DE GASOLINA QUE TERMINOU ENTRANDO
PARA A HISTÓRIA!
O POSTO QUE DEU ORIGEM À “OPERAÇÃO
LAVA JATO” HÁ TRÊS ANOS NÃO LAVA CARROS.
Diante da grandeza da operação, muita gente até esquece de como tudo
começou. Curiosamente, a investigação que tem tirado o sono de políticos e empresários nos últimos três anos
começou tendo como alvo um modesto e movimentado posto de gasolina 24 horas na
asa sul de Brasília. O Posto da Torre, que opera sob o guarda-chuva da rede de
postos Ale, era comandado por Carlos Abib Chater.
O empresário teve seu telefone grampeado por suspeita de envolvimento com
tráfico de drogas e, nas conversas, o Ministério Público descobriu um grande
esquema de lavagem de dinheiro feito a partir do posto. Entre os seus
principais parceiros estava Alberto Yousseff, doleiro investigado desde 2008.
Foi a partir da doação de uma Land Rover de Yousseff para o diretor geral da
Petrobras, Paulo Roberto Costa, que a Lava-Jato atingiu a maior estatal do
país.
Apesar do título dado pela Polícia Federal à operação, o complexo
comercial nunca abrigou um lava jato. Em compensação, além das bombas de
combustível, hospeda serviços de lavanderia, bar, pastelaria e loja de
conveniência. No passado, também foi sede de uma casa de câmbio atualmente
fechada – as investigações revelaram que o negócio era usado para lavar
dinheiro.
Outra mudança: o posto, que antes só aceitava pagamentos em dinheiro
vivo, agora passa cartões de crédito e débito. A restrição anterior, segundo o
Ministério Público, também servia para facilitar a lavagem das verbas
irregulares. Quem paga no método antigo, agora, consegue desconto de até R$
0,16 no litro da gasolina.
Em maio de 2015, Chater foi condenado a quatro anos e nove meses de
prisão por lavagem de dinheiro e segue cumprindo a pena na carceragem da
Polícia Federal em Curitiba, já que ele tinha ligação com outros negócios
escusos na capital paranaense. Ironicamente, além de uma loja de conveniência,
uma lavanderia também faz parte do Posto da Torre. Ela funciona das 7h às 22h
nos dias de semana e das 8h às 20h aos sábados e domingos. Apesar da inspiração
para o nome da operação, o posto não conta com nenhum lava-jato.
Entre os muitos clientes que passam por uma região bastante importante da
cidade estão os próprios políticos, já que o posto fica a apenas 4 quilômetros
do Congresso Nacional, sendo um dos mais próximos à casa da legislatura no
país. Atualmente, o litro da gasolina comum no Posto da Torre sai a R$ 3,42
(abaixo do preço médio de R$ 3,56 no Distrito Federal, segundo os dados da Agência
Nacional de Petróleo).
Os 6 mil reais dos quais os deputados dispõem como cota mensal para
combustíveis e lubrificantes (dentro de uma cota maior para gastos em geral,
que varia de 30 mil a 44 mil de acordo com a distância do estado pelo qual o
deputado foi eleito até Brasília) permitem a compra de 1.750 litros de gasolina
comum no Posto da Torre. O suficiente para encher o tanque do Hyundai Azera
usado pelo presidente da casa, Rodrigo Maia, 25 vezes, e com os quais ele
poderia andar 23.275 quilômetros. É uma distância equivalente a dez viagens de
ida e volta de Brasília para o Rio de Janeiro, seu domicílio eleitoral.
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Aqui se abastecia, gasolina e depois a PF descobriu, também propina!
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A origem da investigação: tudo começou no posto
A PF abriu inquérito
para investigar empresas do então deputado federal José Janene, em 2009.
Deparou com indícios de lavagem de dinheiro que culminaram, cinco anos depois,
na ação que levou à prisão doleiros, altos executivos e agentes políticos e
públicos
Posto da Torre, em
Brasília, base de atuação do doleiro Carlos Habib Chater, inspirou nome da
operaçãoSergio Lima / Folhapress
A polícia federal
não poderia imaginar a dimensão que o caso alcançaria quando abriu inquérito
para investigar empresas do então deputado federal José Janene, em 2009.
Deparou com indícios de lavagem de dinheiro que culminaram, cinco anos depois,
na operação que parou o Brasil e levou à prisão doleiros, altos executivos e
agentes políticos e públicos. Documento de 460 páginas da Polícia Federal
aberto semana passada detalha a apuração.
"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo
o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de
plantar, e tempo de arrancar o que se plantou".
A citação bíblica, registrada
na abertura do documento de 460 páginas no qual a Polícia Federal pediu à Justiça Federal as buscas e prisões
que varreram o país há 10 dias, explica muito sobre a origem da Lava-Jato.
Em 2009, quando
abriram um inquérito para investigar empresas ligadas ao então deputado
federal José Janene (PP), os
federais não sabiam o que estavam plantando. Estavam diante de fortes indícios
de lavagem de dinheiro. Ponto. Mas o que germinou ao longo do trabalho, hoje,
cinco anos depois, parou o Brasil com os resultados da chamada "Operação Lava-Jato 7, o Juízo
Final".
O que a PF e o Ministério Público Federal colheram em milhares de páginas de investigação é um roteiro bem-acabado do funcionamento de organizações criminosas que sugam recursos do erário e são formadas por doleiros, altos executivos e agentes políticos e públicos. No rastro da Lava-Jato, que lá em 2009 nasceu despretensiosa, sem nome, apenas sob o número de inquérito 714/2009, foi detectado tráfico internacional de drogas, mercado paralelo de câmbio com ramificações internacionais, possível esquema de extração ilegal de diamantes com uso de indígenas, corrupção política, suspeita de financiamento ilegal de campanhas eleitorais, fraude em contratos e licitações da Petrobras, superfaturamento de serviços.
O que a PF e o Ministério Público Federal colheram em milhares de páginas de investigação é um roteiro bem-acabado do funcionamento de organizações criminosas que sugam recursos do erário e são formadas por doleiros, altos executivos e agentes políticos e públicos. No rastro da Lava-Jato, que lá em 2009 nasceu despretensiosa, sem nome, apenas sob o número de inquérito 714/2009, foi detectado tráfico internacional de drogas, mercado paralelo de câmbio com ramificações internacionais, possível esquema de extração ilegal de diamantes com uso de indígenas, corrupção política, suspeita de financiamento ilegal de campanhas eleitorais, fraude em contratos e licitações da Petrobras, superfaturamento de serviços.
A origem de tudo está
na apuração do uso da empresa Dunel Indústria e Comércio Ltda para lavagem de
capitais por meio da CSA Project Finance, que teria à frente pessoas ligadas a
Janene. Alvo do escândalo do mensalão, o deputado morreu em setembro de 2010.
Mas os indícios de crimes reunidos até aquele momento levaram a investigação
adiante, com interceptação de telefones e e-mails. O alvo: o doleiro Carlos
Habib Chater, que tinha como base de atuação o Posto da Torre.
Foi este tradicional
ponto de venda de combustíveis em Brasília que inspirou o nome da operação.
Lava-Jato é uma referência a estabelecimentos usados pelo grupo para lavar
valores. O posto, por exemplo, não aceitava pagamentos em cartões. Só dinheiro
vivo, o que, para a PF, facilitava a confusão entre dinheiro sujo e limpo. Um
relatório de inteligência financeira aponta que o posto movimentou, em um único
mês, em 2005, R$ 3,05 milhões.
Com Chater monitorado,
centenas de mensagens foram registradas até que surge um personagem: Primo, em
meados de agosto de 2013. A PF pediu a extensão da quebra de sigilo para
capturar também a linha usada por Primo e as de outros interlocutores
recorrentes nas tratativas de assuntos escusos com Chater.
A lista de apelidos usados nas conversas era extensa: Zezé (Chater), Greta Garbo, Cameron Diaz, Azurita Azul, Asterix, Samuel L.Jackson, Omeprazol. Em pedidos de renovação de quebra de sigilo à Justiça, a PF esclarecia que Primo ainda não estava identificado. De repente, Primo virou Beto. Está registrado em relatório de outubro de 2013:
A lista de apelidos usados nas conversas era extensa: Zezé (Chater), Greta Garbo, Cameron Diaz, Azurita Azul, Asterix, Samuel L.Jackson, Omeprazol. Em pedidos de renovação de quebra de sigilo à Justiça, a PF esclarecia que Primo ainda não estava identificado. De repente, Primo virou Beto. Está registrado em relatório de outubro de 2013:
"PRIMO - Pela interceptação telefônica foi possível a
qualificação deste alvo como Beto, forma como era chamado pelos interlocutores.
Nas ligações Beto fala sobre transações e pagamentos que envolvem significativos
valores monetários. Muitas vezes utiliza-se termos como carbono, papel e
documento para se referir ao dinheiro. Segue abaixo as ligações com maior
relevância para a investigação, com grande destaque para a primeira, em que
Beto conversa com Carlos Habib, alvo da Operação Lava-Jato da Polícia Federal.
Nela Carlos confessa que nem ele sabe como não foi preso na Operação Miqueias,
a qual eles se referem como problema, já que realizou muitas
"operações", provavelmente, se referindo as ações praticadas junto
com Fayed Traboulsi (preso na Miqueias)".
Conheça os presos, os delatores e as obras sob suspeita de
fraude na Petrobras
Também em outubro, um relatório policial informa que os negócios dos alvos, especialmente, de Primo, estão sofrendo prejuízos em função da greve bancária e que naquele período o doleiro esteve internado depois de sofrer dois infartos. Dias depois, em uma conversa, Beto informa a um interlocutor seu endereço residencial (um apartamento com valor de mercado de cerca de R$ 3,8 milhões). Com isso, a Polícia Federal confirma: Primo ou Beto é o doleiro Alberto Youssef.
Também em outubro, um relatório policial informa que os negócios dos alvos, especialmente, de Primo, estão sofrendo prejuízos em função da greve bancária e que naquele período o doleiro esteve internado depois de sofrer dois infartos. Dias depois, em uma conversa, Beto informa a um interlocutor seu endereço residencial (um apartamento com valor de mercado de cerca de R$ 3,8 milhões). Com isso, a Polícia Federal confirma: Primo ou Beto é o doleiro Alberto Youssef.
"Fora encaminhada solicitação de diligências a São
Paulo, que culminou com o Memorando n° 0137/2013-NIP/SR/DPF/PR que confirmou
residir no local a pessoa de Alberto Youssef, que dispensa comentários sobre
sua atuação no mercado paralelo de câmbio há longa data, sendo o ator principal
do conhecido Caso Banestado."
Com a identificação de
Youssef, nasce, em novembro de 2013, outro desdobramento dentro da Lava-Jato, a
Operação Bidone, que tem como foco as atividades ilegais em que está envolvido
o doleiro paranaense. O nome é inspirado no filme Il Bidone (A trapaça), de
Federico Fellini. Outros dois núcleos investigados dentro da Lava-Jato também
ganharam nomes famosos do cinema: Dolce Vita e Casablanca.
O acompanhamento
telefônico e telemático a Youssef permite uma visão geral de seus negócios e
gastos. A PF flagra até negociações para aquisição de barcos e aviões. Começam
a surgir pistas da ligação de Youssef com o ex-diretor de Abastecimento da
Petrobras Paulo Roberto Costa.
Em e-mail interceptado
com autorização judicial, a PF detecta cobrança dirigida a Youssef de viagens
de avião e diárias de hotel em nome de Costa. Um perfil do engenheiro, com toda
a sua trajetória na Petrobras, é registrado no inquérito.
"Destaque-se que Paulo Roberto Costa é o mesmo em nome
do qual foi emitida a nota fiscal da Land Rover Evoque, adquirida por Alberto
Youssef, reportada no relatório anterior. Questiona-se aqui por qual motivo
Alberto Youssef teria adquirido o veículo, no valor de quase trezentos mil
reais, para Paulo Roberto Costa", diz trecho da apuração.
Como a sintonia entre autoridades resultou na mais
bem-sucedida operação contra a corrupção no Brasil
Costa entra no foco da investigação. O inquérito passa reunir documentos com citações a negócios envolvendo a prospecção de petróleo, por exemplo. Em 17 de março, os federais deflagram a fase ostensiva (com cumprimentos de buscas e prisões) da Operação Bidone, que trata do núcleo criminoso denominado Alberto Youssef.
Costa entra no foco da investigação. O inquérito passa reunir documentos com citações a negócios envolvendo a prospecção de petróleo, por exemplo. Em 17 de março, os federais deflagram a fase ostensiva (com cumprimentos de buscas e prisões) da Operação Bidone, que trata do núcleo criminoso denominado Alberto Youssef.
O doleiro foi um dos
presos nesta etapa. Foi capturado com sete aparelhos celulares. Na sede de uma
das empresas dele foram encontrados outros 27 aparelhos.
"Foi ainda afirmado por investigados ouvidos durante a
instrução do inquérito policial que o mesmo mantinha linhas móveis ponto a
ponto a fim de travar suas conversas telefônicas e, com isso, dificultar
eventual interceptação", esclarece trecho do inquérito.
Foi nesta etapa que a
PF fez buscas em dois endereços em Porto Alegre: na casa do engenheiro Eduardo
Antonini e na do jornalista Marcos Martinelli. Conversas de Youssef
interceptadas na investigação indicam que um total de R$ 560 mil teria sido
enviado aos dois endereços, entregues por um emissário do doleiro. Os dois
negam ter recebido valores e ter qualquer ligação com Youssef. Eles não estão
indiciados pela PF.
A análise de
documentos recolhidos na Bidone fez a apuração mergulhar no cenário de
corrupção envolvendo a Petrobras.
- Foi com esse
material, com controles de pagamentos, registros de divisão de propina, que se
teve a dimensão do que estava ocorrendo na estatal - diz um delegado que
participou do trabalho.
Diante do envolvimento de agentes públicos e políticos, a PF adotou a estratégia de ramificar a investigação, abrindo inquéritos por núcleos de doleiros ou fatos apurados. Dessa forma, se surgisse o envolvimento de pessoas com foro privilegiado em um caso, obrigando o deslocamento para cortes superiores em Brasília, a transferência seria específica e não da investigação inteira.
Diante do envolvimento de agentes públicos e políticos, a PF adotou a estratégia de ramificar a investigação, abrindo inquéritos por núcleos de doleiros ou fatos apurados. Dessa forma, se surgisse o envolvimento de pessoas com foro privilegiado em um caso, obrigando o deslocamento para cortes superiores em Brasília, a transferência seria específica e não da investigação inteira.
A ideia deu certo. O
total do trabalho engloba hoje 12 ações penais em andamento na Justiça Federal
do Paraná, algumas já com sentença. A 13ª apuração ainda não se transformou em
processo e é a que trata dos mandados de busca e apreensão e de prisões da
sétima fase da Lava-Jato, apelidada de "Juízo Final".
Depois da avalanche
provocada no país com as prisões feitas no último dia 14, e com o teor das
delações premiadas, a expectativa agora gira em torno das revelações que virão
de Brasília, das investigações que listam agentes com foro privilegiado.

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