HITLER, GOEBELLS E O BRASIL DE HOJE.TEM ALGO A VER?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016 0 comentários
JOSEPH GOEBELLS, O MINISTRO DA PROPAGANDA NAZISTA.
Tem muita coisa e muita gente parecidas com ele no Brasil de hoje!
Enfiar na cabeça dura das massas a devoção a Hitler, como o deus da nova Alemanha, tornou-se o meu objetivo único", escreveu Goebbels - o novo Chefe da Propaganda - que manobrou magistralmente os recursos da psicologia individual e de massa para atingir sua meta.

1. O MINISTRO DA PROPAGANDA

Quando se pesquisa sobre os seguidores de Hitler, um fato logo se torna evidente: por maior que fosse a autoridade que exerciam, eles permaneciam muito mais que apenas subservientes a Hitler. O fenômeno não se devia, ao que parece, à personalidade dominadora de Hitler, nem mesmo à sua posição na hierarquia nazista, mas à indiscutível superioridade que levava sobre os demais no domínio da técnica da ditadura implacável. Ele possuía uma habilidade tática e estratégica bem mais desenvolvida que a de Goering, a despeito da alardeada formação militar deste. A percepção dos problemas da diplomacia estrangeira que freqüentemente revelava, era superior à do palhaço Ribbentrop e muito maior que a de Himmler era a capacidade que tinha de perceber a distância a mais leve intriga, apesar da sinistra reputação criada pelo Reichsführer-SS.
Também na questão da propaganda e na influência da opinião das massas, era Hitler quem delineava os princípios básicos; o Dr. Joseph Goebbels é que os punha em prática. Contudo, deve-se dizer que Goebbels colocou no desenvolvimento e na aplicação da propaganda espalhafatosa e inescrupulosa uma diligência, uma percepção e uma imaginação que chegavam às raias do gênio. "A propaganda, para ser eficaz...", disse Hitler, "tem de se limitar a uns poucos elementos essenciais... expressada tanto quanto possível em fórmulas estereotipadas... repetidas persistentemente" - e a partir de meados dos anos 30 até os últimos dias do Terceiro Reich, o eco estridente de Deutschland erwache, Ein Volk, ein Reich, ein Führer, Sieg Heil, Heil Hitler e, já próximo do fim, Sieg oder Bolschewismus Chaos! varria permanentemente a Alemanha. Nenhuma ambigüidade ou sutileza de significado jamais toldou a simplicidade cristalina das mensagens de Goebbels às massas.

Contudo, talvez na montagem dos gigantescos circos dos comícios partidários Goebbels tenha contribuído com algum elemento particularmente seu, pois, embora Hitler tivesse todas as qualificações para ser o ator principal, ele, que se saiba, não deixou provas de qualquer aptidão para direção de cena. Era ali que Goebbels brilhava, e o efeito inspirador ou aterrador (dependendo da atitude da pessoa para com o Nacional-Socialismo) das Reuniões Partidárias devia muito ao talento do pequeno Ministro do Esclarecimento e Propaganda. O diretor de teatro que tão insolentemente o ignorou, quando, na juventude, Goebbels postulou um cargo no setor de produção de espetáculos, possivelmente não era tão perspicaz quanto julgava que fosse.

Goebbels também possuía considerável talento histriônico, por isso que conduzia sempre a um enigma qualquer paralelo que se pretendesse traçar entre Goebbels e Hitler.
 
Quem ouviu, se lembra claramente de ter ouvido ambas as vozes numa época em que o poderio da Alemanha nazista parecia invencível. A voz de Hitler repercutia pelo mundo, triunfante, brutal, dominadora, assustadora mesmo, talvez por isso tão absorvente, na sua qualidade e nos desafios que a todo instante lançava. 
A de Goebbels, controlada, primorosamente ensaiada, profundamente comovente. Ainda se pode ouvir aqueles belos tons na noite de Natal de 1941 "... Unseres schönes Reich, so Weiss, so Weiss, so Weiss und wunderschone..."

Ele podia fazer chorar.

 Hitler fazia tremer.

2. O JOVEM



 Paul Joseph Goebbels era intelectualmente o mais interessante dos líderes nazistas. A capacidade instintiva de Hitler como estrategista militar ocultava um cérebro de terceira categoria; a indubitável inteligência de Goering foi corrompida pelo sibaritismo e pela presunção; Himmler era um fanático de espírito tacanho. Mas Goebbels usava o intelecto de maneira criativa. Ele transformou Hitler, homem de caráter irresoluto, no Messias de vontade férrea do Terceiro Reich - ou melhor, ele criou em der Führer a ilusão de força messiânica. E o fez apenas pela fraude verbal. Na atividade política, para cujo exercício a duplicidade é considerada função essencial, ele alcançou um padrão de duplo sentido sem paralelo pa história moderna. Virtuose da mentira, ele dominava de maneira tão completa a arte de engodar, que provar que preto era branco não chegava a ser para ele façanha muito grande, uma vez que podia provar que era a cor que escolhesse no momento.

O desenvolvimento do seu intelecto foi em grande parte feito por motivo dos defeitos físicos de que era portador. Quando criança, foi incapacitado pela poliomielite e, mais tarde, pela osteomielite. Além disso, sua constituição era frágil e sua estatura, diminuta. As crianças não são em geral muito dadas à compaixão, por isso, embora nos seus primeiros tempos de escola raramente fosse vítima de crueldade física, muitas vezes foi ele insultado pela fragilidade e deficiência que naturalmente o impediam de participar em atividades que exigiam velocidade ou agilidade. Por conseguinte, ele se esforçou por brilhar no campo do aprendizado, uma vez que no da façanha física estava condenado ao fracasso. E brilhou - para grande alegria dos seus pais.

Friedrich Goebbels, seu pai, era empregado de uma pequena fábrica têxtil, a W.H. Lennartz, situada na cidade de Rheydt, perto de Düsseldorf. Em 1929, Rheydt foi reunida com Waldhausen, Odenkirchen e München-Gladbach, chamadas coletivamente die Textil. W.H. Lennartz se especializava no tratamento químico do tecido de algodão usado na confecção de camisas de lampião e Friedrich Goebbels começou a trabalhar ali como mensageiro, chegando a amanuense.

Ele era um homem solene, orgulhoso por haver subido, pelos próprios esforços, da classe operária (seu pai, Konrad Goebbels, fora carpinteiro) a membro do escritório executivo da firma; também era ardoroso católico apostólico romano.

A mãe de Goebbels, holandesa de nascimento, chamava-se em solteira Katherina Odenhausen. Era filha de um ferreiro que emigrara da Alemanha para a Holanda e se casara com uma holandesa, Joanna Coervers. Katherina, também católica, nasceu em Uebach, Holanda, em 1869.

Os pais de Goebbels tiveram cinco filhos: Elizabeth, Maria, Konrad, Hans e Joseph, cujo primeiro nome, Paul, parece nunca foi usado. Elizabeth morreu quando Joseph tinha 18 anos. A outra filha, Maria, era 12 anos mais moça que ele. Joseph nasceu a 27 de outubro de 1897, numa casa na Odenkirchener Strasse. Em 1899 a família mudou-se para a casa de n° 156 da Dahlener Strasse, em Rheydt, onde Joseph passou o resto da infância e grande parte da juventude.

Seus problemas de ordem física eram bastante compensados por uma certa beleza. Cabelos pretos, bastos, olhos castanhos bem colocados, bons dentes e mãos bem moldadas. Desde criança, Goebbels cuidava muito da aparência, exibindo os elementos do exagerado apuro no trajar que, nos seus dias de poder, resultaria num guarda-roupa de mais de 300 trajes; os que zombavam dele corriam o risco de receber de volta, como retruca, o insulto de desleixado e de porco. Fritz Prang, seu amigo mais íntimo na escola, mais tarde escreveu que, "durante esses rompantes, a gente se sentia como que fulminada pela ferocidade da linguagem por ele utilizada contra a pessoa que se apresentasse com um colarinho sujo ou com a roupa faltando botões".

Dada a circunstância de ter que se isolar fisicamente, ele era inclinado a meditar, mas construtivamente. Com ele, a introspecção não significava autocomiseração. Seus pais, no clima de devoção em que viviam, acreditavam que ele estava juntando forças do espírito de Deus que brilhava dentro dele. Não era, entretanto, a força do espírito de Deus que ele retirava da leitura que fazia com avidez, leitura que mais o encorajava ao ceticismo que à crença na religião cristã. Mas tarde, ele viria a referir-se à missa como sendo "a asneira mais tendenciosa jamais imposta à inteligência humana, mas poderosamente útil para provar a capacidade do homem em absorver absurdos". Contudo, ele considerava vantajoso conformar-se, ansioso como estava por não deixar passar a possibilidade de obter a ajuda dos que pudessem fazê-lo progredir em sua carreira. Naturalmente, ele tomou o cuidado de ocultar o cinismo com que encarava a questão da espiritualidade e de muitas maneiras expressava as reações dúplices de suas atitudes, como, por exemplo, no prazer que sentia em imputar falsas informações que resultassem em castigo para os colegas de escola que zombavam da sua debilidade - o que lhe valeu o apelido de Ulex (Ulisses), pela sua astúcia. Ele orgulhosamente se enfeitou com o cognome durante toda a juventude, mas cuidou de observar que Ulisses era famoso pela coragem, mas também pela astúcia; isto seria igualmente verdadeiro quanto a Joseph Goebbels.

A sua educação, que seus pais pagaram a duras penas, iniciou-se no Rheydt Gymnasium. Tem-se afirmado, incorretamente, que Goebbels se ressentia amargamente da ironia de ser obrigado à violência do atletismo por pais decididos a fazer com que sua incapacidade física fosse superada, mas isto não é verdade. Se os pais enfrentaram dificuldades para educá-lo, os resultados foram extremamente compensadores. O filho era um aluno exemplar. Em latim, grego; línguas modernas, história, matemática, política, economia e nas Escrituras, ele estava sempre em primeiro lugar. Isto fê-lo perder popularidade, mas Goebbels pai muitas vezes o congratulava por "manter-se firme contra a inveja dos inferiores". O que seu pai não percebia é que ele se mantinha firme principalmente com as armas do sarcasmo e da arrogância.

A futura, carreira de Joseph era um grande problema. Quando tinha 17 anos e a Primeira Guerra Mundial estourou, ele se apresentou como voluntário para o exército e, naturalmente, foi rejeitado por causa dos defeitos físicos. Dificilmente poderia esperar ser aceito. (Desapontado ou não, o fato é que ele tirou excelente partido da sua coxeadura, informando os curiosos complacentes de que fora uma das primeiras baixas na guerra.)

A rejeição deu-lhe a vantagem de poder continuar os estudos, coisa que os pais consideraram caída dos céus para pô-lo no caminho do sacerdócio, onde, acreditavam, Goebbels, com seu gosto pelo estudo, encontraria o seu verdadeiro destino. Fritz Prang diz que, independente de crença, Goebbels estava perfeitamente disposto a "seguir o caminho religioso, porquanto dificilmente deixaria de alcançar o bispado, no mínimo". Sua ambição - mais por um lugar em alguma hierarquia do que pelo poder em si - era, como diz Prang, "quase incandescente quando ele estava na Ober-Prima (Sexta Série) da escola". Sem querer duvidar da capacidade de Goebbels, é muito pouco provável que obtivesse ingresso em qualquer seminário. A incandescência da sua ambição não teria sido mais útil do que uma das camisas de lampião de Lennartz. O que os mentores da Igreja procuravam era incandescência de crença.

Influenciados pela fé que tinham e pela inteligência do filho, Friedrich e Katherina Goebbels fizeram muito sacrifício para que ele conseguisse um diploma. Também eles tinham sua ambição: que seu brilhante filho se tornasse Herr Doktor Joseph Goebbels. Ele se matriculou na Universidade de Bonn em 1917, tendo obtido as notas mais altas já registradas no Rheydt Gymnasium, no Maturitätsexamen. Embora dispostos ao maior sacrifício, os pais de Joseph não conseguiram reunir o suficiente para cobrir as despesas exigidas pela freqüência à universidade, e por volta de agosto de 1917 já era evidente que ele não poderia continuar seus estudos. A quem recorreria? Ele conseguia alguns marcos como professor particular, que eram apenas suficientes para pagar uma refeição modesta em certos dias. Precisava, a qualquer preço, buscar uma ajuda caridosa. O Padre Johannes Mollen, o sacerdote de Rheydt, que se encarregava da instrução religiosa dos filhos dos Goebbels, dirigiu um pedido à Sociedade Albertus Magnus, uma rica fundação que dá ou empresta dinheiro a, entre outras pessoas, estudantes pobres que se preparam para o sacerdócio. Caracteristicamente cínico, Joseph Goebbels ocultou a enorme descrença religiosa que mais tarde alardearia tão orgulhosamente como parte do conceito nazista e, com ironia, escreveu para a sociedade em tons formais e humildes:

"Peço humildemente permissão para apelar para a Comissão Diocesana da Sociedade com o objetivo de obter apoio financeiro para o semestre de inverno de 1917-1918. Na Páscoa, matriculei-me no Rheydt Gymnasium (cujo relatório de exame estou anexando), onde estudei Filologia e História, pagando meus estudos com poupanças que consegui fazer dando aulas particulares e com a ajuda de meu pai, que trabalha como amanuense e cuja renda de 4.000 marcos anuais [cerca de 400 libras pelos valores de 1917] é aplicada no sustento de meus dois irmãos, um dos quais está na Frente Ocidental, o outro é prisioneiro de guerra, e minha mãe e minha irmã mais moça. Devido à minha perna defeituosa, fui rejeitado para o serviço militar e gostaria imensamente de prosseguir meus estudos universitários no próximo período letivo. Mas isto depende inteiramente da caridade dos seus companheiros de crença católica. Peço humildemente que examinem este pedido e me informem o mais breve possível da decisão que tomarem. Estou certo de que meu ex-professor de religião, Padre Johannes Mollen, confirmará a correção de todas as minhas declarações. Com respeito e devoção, cordialmente, Joseph Goebbels."

Ele anexou o resultado do exame e um testemunho do Padre Mollen, que dizia: "Herr Goebbels descende de uma fiel família católica da minha paróquia e o recomendo pela sua atitude religiosa e pela sua alta posição moral".

A sociedade dificilmente poderia contestar a palavra do padre - embora não fosse notavelmente entusiástica - mas há uma insinuação no livro de minutas de que a comissão tinha suas dúvidas quanto à sinceridade de crença de Goebbels: "Depois de demorada discussão", concordou-se, embora não por unanimidade, em conceder-lhe um empréstimo de 185 marcos e considerar outros pedidos se houvesse necessidade. O empréstimo, ou empréstimos não teriam juros. Quatro marcos eram então trocados por um dólar, de modo que se pode ver que, mesmo em termos dos valores de 1917, o empréstimo não foi muito grande. Mas com os 50 marcos que seu pai lhe mandava mensalmente, ele pôde completar seu período letivo em Bonn.

A partir deste ponto, os safaris educacionais do jovem Goebbels assumem uma complexidade estonteante. De Bonn ele foi para Freiburg e, depois, para Heidelberg. O inverno de 1918 encontrou-o em Würzburg, e o semestre seguinte em Colônia. Em 1919 ele esteve matriculado em Frankfurt e Berlim, enquanto que, em 1920 e 1921, passou mais dois semestres em Heidelberg e, entre eles, um em Munique. As razões para esse verdadeiro nomadismo não são de todo claras. É certo que ele não foi suspenso ou excluído de qualquer das oito universidades que cursou. Ao contrário, os professores que se manifestaram a respeito de Joseph, por carta ou boletins escolares, são unânimes em reconhecer nele qualidades de inteligência, de aplicação e de comportamento. Talvez o que explique o inquieto procedimento de Goebbels, esse desejo de aparecer entre os diplomados de tantas alma maters, seja a ânsia de ampliar seu aprendizado em muitas direções - na verdade é comum os estudantes alemães estudarem em duas ou três universidades, devido à especialização dos currículos: literatura ein Heidelberg, teologia em Bonn, filosofia em Colônia etc. Mas oito parece ser um número bastante exagerado. Talvez a escolha da universidade tenha sido, até certo ponto, ditada pela disponibilidade de acomodações que ele pudesse pagar.

As estalagens das cidades universitárias alemães eram notoriamente gananciosas (a cupidez dessa gente foi retratada pela pena acre do artista George Grosz) e as cartas do estudante Goebbels que ainda existem partiram de endereços pobres. Igualmente provável é que a inquietação natural da juventude e a agitação política para a qual se dirigia a Alemanha do pós-guerra ditassem os freqüentes vôos do universitário.

Em todo caso, ele obteve em Heidelberg, em 1921; o grau de Doutor em Filosofia. Seus professores foram Friedrich Gundolf e Anton von Waldberg (ambos judeus) e sua tese de doutorado foi uma trabalhosa dissertação sobre a obra de um dramaturgo menor alemão do século XIX, Wilhelm von Schütz. 
Ela foi solenemente intitulada Uma Contribuição pura a História do Drama Romântico; mas na década seguinte, depois de nomeado Ministro da Propaganda, ele mudou apressadamente o título para As Correntes Espirituais e Poéticas dos Primeiros Românticos, para que os registros mostrassem suas tendências políticas precoces.

Na verdade, naquele período da vida, ele considerava a política algo confuso - o que não é de surpreender, em vista da agitação que abalava a Alemanha sob a República de Weimar. Um dos seus biógrafos, Curt Riess, observa que "Estudantes reacionários e esquerdistas se insultavam e se denunciavam como traidores e lunáticos. Sempre que os examinava atentamente, Goebbels descobria neles um bando de jovens instáveis e desorientados. Para a sua mente analítica e dissectora, o que diziam não passava de frases sem sentido; suas promessas, de simulações ocas. Sentia a inexistência de um ponto onde firmar-se: havia um vácuo. Desejava que algo o inspirasse, queria ser como os outros; "queria crer".

Em tudo isso, naturalmente, Goebbels não mostrava nada de extraordinário: a busca de si mesmo, de um arrimo, é tão universal quanto a própria juventude. Uma carta de seu pai, escrita quando Goebbels estava em Munique, aconselha-o a buscar na oração o remédio para as dúvidas que alimentava sobre as coisas da religião, acrescentando: "Mas, se tuas dúvidas são de natureza diferente, ainda assim só te posso aconselhar uma coisa: orar e continuar orando, e eu também orarei para que Nosso Senhor te ajude, para que tudo saia bem".

O grande problema de Goebbels era, entretanto, o complexo de inferioridade. "Sou um apóstata", escreveu ele, em seu diário, em 1921. Em seguida, reescreveu a frase em letras maiúsculas, como se regozijasse diante da descoberta, imaginando, quem sabe, que dessa maneira se desprendia da multidão vulgar. Mas a apostasia não afrouxava o tormento que lhe impunha o complexo de inferioridade. Acima de tudo, ele sentia a necessidade de uma linha de ação positiva.

Quem lhe mostrou essa linha foi Richard Flisges, um estudante cheio de amargura, ex-soldado, com muitas condecorações por bravura e pouca inteligência. A amargura fizera-o voltar-se para o comunismo, que, como muitos outros descontentes, considerava a solução para os problemas do mundo. Era um homem robusto e desleixado, que podia erguer - e às vezes erguia - Goebbels pelo colarinho e o sacudir, mas por quem Goebbels tinha uma afeição paradoxal que, naturalmente, ocultava debaixo das críticas que freqüentemente fazia à aparência desmazelada de Flisges.

A orientação foi através de Marx, Engels e Walther Rathenau. Mas, longe de conduzi-lo para a crença ardente nas teorias do comunismo, as discussões violentas que sustentava com Flisges e outros colegas sobre a filosofia vermelha o conduziram para o lado oposto.

No começo dos anos 20, Munique, a capital da Baviera, era o grande centro de agitação comunista e para lá se voltou Goebbels, à procura de trabalho: ("Tenho de encontrar um modo de começar a vida", escreveu ele em seu diário), no verão de 1922. O aspecto urbanístico da velha cidade o havia agradado muito durante o período em que lá esteve estudando, no ano anterior. Ele morara em Schwabing, cuja atmosfera lembrava muito a da Rive Gauche, e a irradiação das ruas da Marien-Platz era para ele "uma representação simbólica da diversidade de vida, pois cada rua oferece diferentes possibilidades".

Em 1922 Munique já havia passado por três grandes agitações políticas do pós-guerra. A República Socialista de 18 de novembro, o contra-movimento Nacional-Socialista de janeiro de 1919 e a República Soviética de abril de 1919 haviam começado ali. O partido nazista havia-se instalado na Braunes Haus e, já com cerca de 50.000 adeptos inscritos, continuava atraindo adesões, sobretudo dos mercenários livres, que viam na guerra contínua a salvação da Alemanha. Ali, com iguais objetivos revolucionários, estavam o Freikorps e a Reichswehr, organizações paramilitares clandestinas carregadas de ameaça, e nas tavernas, Adolf Hitler, na época Oficial de Propaganda do partido nazista. Ali também, algumas semanas antes da chegada de Goebbels, Walther Rathenau, Ministro do Exterior e arquiteto do Tratado de Rapallo, projetado para estreitar as relações russo-germânicas, fora assassinado por ex-oficiais da marinha pertencentes à organização terrorista nacionalista. Munique podia ser esteticamente bela e agradável, mas dificilmente se poderia considerá-la tranqüila.

Típico da Alemanha do pós-guerra, a licenciosidade campeava na cidade, embora menos que em Berlim e Hamburgo, onde a depravação raiava pelo absurdo. Havia em Munique uma variedade de boates, bordéis, cabarés de travestis, cassinos e de lugares onde se exibiam filmes pornográficos, e nessa atmosfera de lascívia Goebbels derramava em abundância os gozos da juventude.

"Ele se mostrou sempre muito atrevido e convencido", lembra Fritz Prang, "durante todo o transcurso da vida universitária. As garotas deixavam-se cativar facilmente por ele. Acho que a sua fragilidade e o seu pé aleijado faziam com que elas se sentissem maternais e protetoras, e ai é que começava tudo. Goebbels não demorava a conquistá-las - fazendo-se muito encantador e colocando na voz bastante mel.

"Ele teve alguns casos amorosos sérios e duradouros. Um deles foi com uma jovem chamada Anka Stahlhern, que durou três ou quatro anos, até que ela o trocou por um homem mais velho, que tinha mais dinheiro. Bem, ele dificilmente poderia ter menos do que tinha, e fez uma grande cena de humilhação torturada. O caso fora muito sério, com longas cartas de amor trocadas entre eles; mas os pais de Anka não olhavam o romance com bons olhos, pois não viam qualquer futuro para Goebbels - as perspectivas não se mostravam, em seus dias de estudante, muito boas para ele. Mais tarde, à sua maneira mordaz, costumava Goebbels dizer que se ela tivesse sido menos mercenária, teria casado com o Ministro da Propaganda. Mas não a culpou totalmente por havê-lo abandonado. Tendo fracassado o seu casamento, Anka, desempregada, recorreu, em 1934, a Goebbels, para que a ajudasse, e ele a colocou na equipe de uma revista feminina.

"Depois que Anka terminou com ele, Goebbels arranjou outra garota. Chamava. se Else Taub, era professora e sua família tinha muita influência nos círculos comerciais. Também dessa vez ele foi terrivelmente ardente - poemas de amor, passeios idílicos pelos bosques, reclamações pelo fato de a sociedade ser desorganizada demais para poder incluí-lo em seus planos. Era tudo coisa de estudante! Flisges, eu, Goebbels e Else costumávamos passar horas nos cafés, ou em nossas próprias casas quando não tínhamos dinheiro para pagar um café (normalmente quem pagava era Else).

"Naturalmente, o que precisávamos mesmo era de trabalho para ocupar o tempo, mas não era fácil consegui-lo naqueles tempos conturbados. Goebbels decidira tornar-se literato e não parava de escrever artigos e enviá-los para os jornais e revistas. Todos eram recusados. Escreveu uma novela e uma peça de teatro que também não deram em nada. O dinheiro que ganhava vinha de empregos casuais, como professor ou em escritório. Eu mesmo consegui um para ele na Bolsa de Valores de Colônia, e os Taubs o colocaram no Banco Dresdener; mas esses dois empregos não duraram muito. Como se diz hoje, ele estava sempre fazendo das suas - livre, namorando, metido sempre na mesma roupa surrada, vivendo em casa, em Rheydt, quando sem recursos, ou arrumando-se comigo ou com Else, ou outros amigos, quando podia. Para um homem que seria designado sucessor de Hitler, este tipo de formação era de fato muito problemático".

3. A TAREFA

As primeiras manifestações literárias e oratórias do homem que viria a influenciar toda a nação alemã pela palavra não foram nada espetaculares. Tendo recebido a oportunidade de ser o orador da turma, na sua formatura, no Ginásio de Rheydt, o Padre Mollen lhe disse com um sarcasmo nada caridoso que, como orador, ele sem dúvida seria um bom pasteleiro. Ele enviou várias centenas de artigos para os jornais e revistas - principalmente o Berliner Tageblatt - e todos foram recusados, com a justificativa de que as idéias neles contidas, além de mal formadas, eram apresentadas incoerentemente. Sua pretensa novela, chamada Michael e escrita em tiras de pretensiosos versos livres, com pontos de exclamação e letras maiúsculas, foi, também com justiça, recusada por todos os editores que a leram, até que, em 1929, um editor pró-nazista achou ser de boa política aceitá-la. Duas peças teatrais em versos, O Peregrino e O Hóspede Solitário, permaneceram inéditas. Depois que os nazistas subiram ao poder, a primeira delas foi encenada por três noites, sendo recebida impassivelmente pela platéia.

Caracteristicamente, Goebbels reagiu com arrogante superioridade à manifestação de indiferença. "Sei que minha obra encontrará seu lugar", escreveu ele em seu diário. "É só questão de tempo."

O tempo chegou em 1923. Em janeiro daquele ano, o Primeiro-Ministro da França, Raymond Poincaré, ordenou a ocupação do Ruhr como medida punitiva contra a Alemanha, por não cumprir as condições impostas pelo Tratado de Versalhes. Como conseqüência, naquela vasta área industrial houve de início certa resistência passiva, na forma de greves, seguindo-se as sabotagens, a guerra clandestina e ferozes lutas de rua, provocadas pelas facções, desorganizadas, mas violentas, dos Freikorps, dos anti-republicanos e dos ainda embrionários nacional-socialistas.

Em seu diário, Goebbels diz que "de repente sentiu-se inflamado pelas injustiças de Weimar e de Versalhes. Ouvi dizer que Krupp, o grande industrial, estava apoiando elementos guerrilheiros e peguei o dinheiro que meus pais puderam dar-me e parti para Essen. Procurei Albert Schlageter, o líder dos sabotadores, e ofereci-lhe meus préstimos para qualquer serviço. Ele me recusou, porque meu pé faria que me descobrissem facilmente, o que seria um desastre para eles. Mas ele me disse que havia trabalho muito importante que eu podia fazer: funcionar como agitador e propagandista".

Havia, deveras, causas suficientes para se agitar e fazer propaganda. Na época, a Alemanha estava fervilhante delas e a de Albert Schlageter parece ter sido uma das numerosas causas anônimas, apenas uma erupção provocada pela injustiça da ocupação do Ruhr. Todas as erupções desse tipo pecavam pela falta de orientação e, portanto, eram ineficientes. A destruição de algumas pontes ferroviárias ou o seqüestro de um ou dois caminhões carregados de munições eram pouco eficazes contra as tropas francesas e belgas firmemente instaladas e contra a ameaça dos aliados de cortar o envio de alimentos para a Alemanha, se não se restaurasse a ordem. Nessas circunstâncias, os distúrbios não demoraram a ser suprimidos e as greves, canceladas. Mas, embora as ações possam falar mais alto que as palavras, estas é que têm de vir primeiro.

Tendo-se "inflamado com a injustiça", Goebbels passou a reexaminar as obras de Marx, Engels e Rathenau, apenas para reagir ainda mais violentamente do que antes contra elas. Nessa reação ele foi ajudado por Fritz Prang que, apesar da oposição dos seus pais, ouvira Hitler falar em Munique e dera cópias de panfletos nazistas a Goebbels. Embora ainda estivesse mal formada, na época, a política nazista de nacionalismo intenso "provocou e realimentou minhas chamas de angústia", escreve Goebbels. Prang comenta secamente que era evidente que a literatura nazista "o excitou politicamente"; ele sempre estava assim sexualmente.

Seu fascínio pela doutrina nazista foi acentuado pelas numerosas reuniões políticas a que Goebbels compareceu - normalmente acompanhado de Prang e várias amigas - durante o ano de 1923. É possível, não posso afiançar, que Hitler fosse o orador em algumas delas. Em um dos seus trechos mais pomposos (este provavelmente foi acrescentado mais tarde à muito autobiográfica novela Michael, tal como mudara o título da sua tese de doutorado para convencer a posteridade das suas primeiras tendências políticas), ele escreve sobre um grande (mas anônimo) orador:

"Naquela noite sentei-me numa grande sala, com mil outras pessoas, para vê-lo novamente, para tornar a ouvir aquele que me despertara.

"Ali está ele, em meio à sua leal congregação. Parece ter aumentado de estatura. Há muita força nele e um mar de luz brilha naqueles grandes olhos azuis.

"Sento-me com os outros e parece que ele se dirige apenas a mim.

"Sobre a bênção do trabalho! Tudo o que eu simplesmente sentia ou adivinhava, ele punha em palavras. Minha confissão e minha Fé: ali elas tomaram forma.

"Sinto sua força encher-me a alma. Aqui está a jovem Alemanha e aqui estão os que trabalham na forja no novo Reich. A bigorna ainda está silenciosa, mas o martelo não tardará a bater.

"Aqui é meu lugar.

"Ao meu redor estão pessoas que nunca vi antes e sinto-me criança, enquanto lágrimas me afloram sos olhos."

No mesmo espírito melodramático, ele declara mais tarde:

"Sei agora para onde meu caminho me leva. O caminho da maturidade. Pareço estar embriagado.

"Lembro-me da mão do homem apertando a minha. Um voto para toda a vida. "E meus olhos encontram duas grandes estrelas azuis."

Tudo isto para nos dizer, pelo narrador autobiográfico de Michael, que ele fora fascinado por Hitler já em 1923. Ele pôde apresentar provas adicionais, na forma de uma Carteira de Membro do Partido com o baixo número de 8762.

Mas quando chegou o momento de provar sua fidelidade precoce ao Partido, Goebbels já se encontrava em condições de poder alterar datas e números nos arquivos tão assiduamente compilados por Heinrich Himmler, em seu papel de guarda zeloso do Führer, e não há dúvidas de que assim fez. Ele compareceu a muitas reuniões políticas de muitos partidos, mas sua filiação ao bloco nazista não é tão antiga como pretendeu fazer-nos crer; não participou do fracassado putsch de Munique, de 9 de novembro de 1923, que resultou na prisão de Hitler por sedição, e certamente não conheceu Hitler pessoalmente antes de 1925. 
Uma carta que ele afirmou ter enviado ao Führer na prisão de Landsberg, em 1924, na realidade foi escrita muito mais tarde e antedatada para ser usada como prova da sua antiga filiação ao partido. Ele tinha de iludir-se antes que pudesse começar a iludir outros. 
Mesmo assim, é uma carta interessante, oferecendo, como observa Curt Riess, prova do "entusiasmo do propagandista-amador pelo mestre da propaganda":

"Como uma estrela que nasce, apareceste aos nossos olhos espantados, realizaste milagres para abrir nossa mente, num mundo de ceticismo e desespero, deste-nos fé. Ergueste a ti mesmo acima das massas, cheio de fé e certeza no futuro, e possuído da vontade de libertar aquelas massas com teu ilimitado amor por todos os que acreditam no novo Reich. Pela primeira vez vimos com olhos brilhantes um homem que arrancou a máscara das faces destorcidas pela ganância, das faces dos medíocres e intrometidos parlamentares. Vimos um homem que nos mostrou o quanto o sistema é vergonhosamente corrupto e baixo...

"No tribunal de Munique [onde Hitler fora julgado] atingiste aos nossos olhos a grandeza de um Führer. O que disseste são as maiores palavras pronunciadas na Alemanha desde Bismarck. Expressaste mais que tua própria dor e tua própria luta. Deste nome à necessidade de toda uma geração, buscando em confuso anelo homens e tarefas. O que disseste é o Catecismo da nova crença política, nascida do desespero de um mundo ateu em colapso... Nós te somos gratos. Um dia a Alemanha te agradecerá ... "

A 1o de abril de 1924 - no mesmo dia em que Hitler foi condenado a cinco anos de prisão - Franz von Wiegershaus, o representante eleito do Völkische Freiheitspartei no Reichstag, ofereceu trabalho político a Goebbels. Este partido era integrado por um grupo dissidente da extrema direita do movimento nacionalista, do qual os nazistas, naturalmente, haviam sido os mais evidentes através do seu líder Adolf Hitler. Agora, o partido nazista estava proscrito e Hitler não tinha intenções de vê-lo nem mesmo subrepticiamente ativo enquanto estivesse preso. Ele, que encontrara dificuldade em conquistar a sua liderança, o preferia totalmente abandonado, a vê-lo dirigido por caminhos falsos por Führers rivais. No idealismo de Hitler só havia lugar para um Führer. Naturalmente, uma coisa é proscrever um movimento político pela lei; outra, muito diferente, é suprimir suas atividades de verdade. Em meio ao caos constitucional e econômico que paralisou a nação durante toda a década, os nacionalistas da fragmentada ala direita continuaram operando, apesar da sua desunião; no norte da Alemanha, os remanescentes nazistas foram mantidos mais ou menos coesos por Gregor e Otto Strasser, abastados homens de negócio que não gostavam de Hitler (que, no devido tempo, se vingaria de sua vacilante lealdade), mas que se sentiam muito satisfeitos com a conotação política do movimento, de extrema direita.

O Völkische Freiheitspartei não fora incluído na proscrição. Era pequeno, dirigido ineficientemente e não representava qualquer ameaça visível à República de Weimar. Mas Wiegershaus pretendia continuar veiculando opiniões extremistas através do seu jornal - que não passava de um boletim noticioso - o Völkische Freiheit. Ele precisava de um secretário e redator-assistente e ofereceu a Goebbels 100 marcos mensais, se este incluísse em suas atividades na redação do boletim alguns discursos a serem proferidos nas reuniões públicas convocadas pelo partido.

O salário era insignificante, mas Goebbels, que atravessava uma das suas fases de desespero (ele tinha um quê de maníaco-depressivo), depois que o redator do Berliner Tageblatt se recusara até mesmo a entrevistá-lo, quando ele solicitou um emprego, e que um diretor de teatro chegou a rir-lhe na cara, aceitou o convite de Wiegershaus. O diretor de teatro registrou, sobre o incidente com Goebbels, o seguinte: "Sem nunca ter tido qualquer experiência teatral, ele pretendia ingressar diretamente no quadro de produtores". Por essa época, o caso de amor que mantinha com Else Taub passava por crise muito séria. Assim é que já em meados de abril de 1924 Goebbels estava metido numa série de reuniões políticas realizadas em Eberfeld, outra cidade têxtil da Renânia do Norte-Westfália.

Ele não demorou a desiludir-se com as platéias que, segundo disse numa carta que enviou para casa, "eram inacreditavelmente estúpidas e podiam ser levadas em qualquer direção com os mesmos limitados lemas" e o faziam sentir-se como "um excelente ator perdido na companhia de um elenco de décima categoria".

Acontece, porém, que ele não estava perdendo tempo. Certa feita, Gregor Strasser encontrava-se por acaso na platéia e, no fim da reunião, cumprimentou Goebbels pela eficiência da oratória. Nada mais aconteceu de importante até que, no fim do ano, Hitler foi libertado da prisão, depois de cumprir nove meses da pena de cinco anos que lhe havia sido imposta, e começou a reorganizar o partido.

Strasser nomeara um homem chamado Karl Kaufmann para cuidar dos assuntos nazistas no distrito Reno-Ruhr e Kaufmann disse a Strasser que "um jovem ardente chamado Goebbels, dotado de ótima voz", o procurara solicitando trabalho político. Strasser imediatamente lembrou-se da reunião em que viu Goebbels lutar por incutir os princípios do Völkische Freiheit no cérebro de uma platéia estúpida.

"Tragam-no aqui", disse Strasser. (A conversa está registrada no livro de Otto Strasser, Die Deutsche Bartholmaensnacht.) "Ele talvez seja mais eficiente do que o homem que temos no momento trabalhando no secretariado, Heinrich Himmler. Himmler está pensando em se dedicar à criação de galinhas, para o que talvez tenha muito mais aptidão. Se houver problemas em tirar Goebbels de Wiegershaus, ofereça-lhe o dobro do salário que está recebendo agora. Acho que talvez valha a pena."

Assim, na primavera de 1925, passou Goebbels a funcionário do partido nazista - oficialmente na ilegalidade, mas de modo algum moribundo.

"Era um emprego que exigia grande vigor", escreveu ele, mais tarde, em Batalha por Berlim. "O Führer saíra da prisão cheio da determinação do gênio. Os discípulos reuniram-se em torno dele e lhe ouviram a palavra."

(A imagem dos discípulos sentados aos pés do Mestre não é corroborada pelos fatos; mas não está em desacordo com as tentativas feitas por Goebbels de criar a imagem de um revolucionário semelhante a Cristo. Embora apóstata, ele sabia por intuição que ainda não chegara o momento da palavra agnóstica.)

"Os movimentos revolucionários", prosseguiu ele, "não são feitos pelos grandes escritores, mas pelos grandes oradores. É um erro acreditar que a palavra escrita é mais eficaz porque a imprensa diária é lida por grande número de pessoas. Ainda que o orador possa apenas atingir, na melhor das hipóteses, uns poucos milhares de pessoas, enquanto o escritor político atinge facilmente de dez a cem mil leitores, a palavra falada tem muito maior poder de influência e pode ser transmitida cem, milhares de vezes. E um discurso bem feito é infinitamente mais sugestivo do que um bom editorial".

O primeiro porta-voz oficial do partido nazista, o Nationalsozialistische Briefe, apareceu em outubro de 1925. Era dirigido pelos irmãos Strasser, diferindo bastante do Völkische Freiheit, que era mimeografado. Fosse qual fosse a opinião de Goebbels sobre a importância da palavra escrita, o fato é que ele escreveu a maior parte dos artigos saídos nos primeiros números fazendo a apologia de uma filosofia política de extrema direita, bem de acordo com a ideologia nazista que Hitler, na prisão de Landsberg, ditou para Rudolf Hess, na confecção dos originais do Mein Kampf. Se diferença havia no conteúdo da pregação de Goebbels com o que Hitler preconizava em seu livro, não era nada que não pudesse ser de imediato a ele ajustado, e isso se deu assim que se conheceram.

Esse encontro deu-se a 2 de novembro de 1925 e está registrado no diário particular de Goebbels, cuja parte pertinente está na biblioteca da Universidade de Stanford, Califórnia. A nota refere a imediata simpatia de Hitler pelo homem que lhe foi apresentado por Kaufmann como "o assistente de Gregor Strasser que está fazendo um esplêndido trabalho pelo partido no Brieje e nas reuniões públicas". "Ele me cumprimentou como a um velho amigo", escreve Goebbels, "e deu-me uma fotografia sua, com a inscrição Heil Hitler, que está sobre a minha mesa. É um líder de origem é formação popular; tem tudo para ser um rei... grandes olhos azuis, como estrelas... fala incansavelmente durante horas... Adoraria tê-lo como amigo".

Aqui, transposto para seu momento adequado no tempo, está claramente o Narrador do Michael, olhos extasiados e tudo o mais. Aqui estão também o anseio por amizade e a queda para a bajulação, os dois pilares de que se serviu Goebbels para crescer no conceito de Hitler. O exercício de sua falta de virtudes morais fazia dele um exibicionista, um ansioso por ser adorado pelos que o cercavam, causa dos desencontros registrados nas suas relações amorosas. "Ele estava procurando eternamente a mulher que o amasse e 'compreendesse' ", diz Curt Riess, e qualquer dos trechos do diário de Goebbels corrobora esta opinião: "Else está aqui, toda em lágrimas e tristeza. Vamo-nos separar. Ela me implora para que não a deixe. Horas de profunda angústia... Parece que tem de ser assim: há uma maldição comigo no tocante às mulheres... Else me escreve um bilhete para acabar tudo. Não podemos nem mesmo ser amigos, mas eu amo essa pobre e doce criança. Se ela pudesse retribuir-me o amor que preciso, a sua aclamação pelo que outros têm chamado de minha brilhante capacidade".

Essa "brilhante capacidade" (como orador) era certamente um dom de Goebbels. Mas ele não podia resistir à tentação de exagerar o entusiasmo da sua platéia. As reuniões políticas, cuja assistência, segundo nos garantem Prang e outras testemunhas dignas de confiança, não ultrapassava umas poucas centenas de pessoas, transformam-se em "milhares" nos diários; e "os aplausos entusiásticos e as horas de apertos de mãos e congratulações" na verdade não passavam de sinais de aprovação e comedidas manifestações de concordância. Como os diários pretendiam ser particulares, não pode haver dúvida de que Goebbels tinha também enorme capacidade de enganar a si próprio. Eram, os seus diários, um espelho cor-de-rosa a refletir as imagens que mais tarde refletiriam os seus numerosos e bem talhados ternos. Mas, por enquanto, eram apenas distorções auto-induzidas.

Contudo, na primavera de 1926, o próprio Hitler condescendeu em levar Goebbels consigo numa tumultuosa viagem pela Baviera, durante a qual ele seria o orador de apoio. Naturalmente, a condescendência destinava-se a vitaminar a vaidade de Goebbels, providência que salienta a necessidade em que Hitler se encontrava de ter em torno de si, na época, número cada vez maior de seguidores dignos de confiança que poderiam ser indicados para as várias posições de mando à medida que o partido evoluía para a conquista do poder.

A alegria de Goebbels leva-o a depositar uma coleção de incoerências em seu diário: "Tudo nele é bondade... ele é um rei... mas, Cristo ou João?... Tenho seu carro e seu motorista às tardes... ele me abraça enquanto os gritos de entusiasmo abafam tudo... heil após heil... tenho os olhos marejados de tanta emoção... sua mão tem a firmeza da de um rei na de um príncipe secundário... seus olhos prendem-me como um abraço... " E assim por diante, em termos destinados a sustentar seu próprio ego e, ao mesmo tempo, ser preconcebidamente favorável ao Führer, para o caso de ele vir a pegar o diário - o que Goebbels pretendia que viesse a acontecer. "É preciso lembrar", escreve Prang, "que Goebbels tinha excelente faro para o sucesso psicológico; tanto quanto Hitler. Assim, com efeito, os dois se estavam superando mutuamente na conivência - Hitler para conquistar Goebbels pela adulação, e este, preparando uma espécie de base para Hitler pisar como que sobre um tapete vermelho. Encontramos muitas anotações no diário dizendo que Hitler enviou flores a Goebbels, ou que este 'presenteou o Führer com um singelo buquê de rosas que trouxe lágrimas àqueles grandes olhos' e muitas extravagâncias desse tipo".

Quais seriam as intenções de Hitler? Por que se daria ele a tanto trabalho para conquistar um homem que ainda não chegara aos trinta anos e que - apesar do que afirmaria mais tarde - apenas se filiara ao partido havia alguns meses, e cuja natureza maníaco-depressiva insinuava uma instabilidade indesejável na política? A resposta talvez residisse na fantástica percepção psicológica do Führer, que sentiu em Goebbels o organizador potencial da propaganda do partido - um campo no qual ele próprio era um virtuose, como relata em Mein Kampf. Mediante hábil publicidade e com apenas o capital original do partido, de 7.50 marcos e sete membros desorientados cuja única ideologia, usada somente em conversas frívolas, era esmagar judeus e bolchevistas, ele conseguiu arregimentar uma força que no começo dos anos 20 atingia cerca de 2.000 membros. Portanto, justo é que se lhe reconheça o direito de afirmar que reconhecia a distância um bom propagandista.

Mas no momento havia trabalho mais áspero a ser feito do que a fabricação de propaganda e Goebbels teve de provar que era, além de inteligente, um implacável membro do partido. O campo de provas seria Berlim, onde o Gauleiter (líder de área) era um homem chamado Schlange, que fora nomeado pelos irmãos Strasser e que permitira que a confusão, a negligência e a irresponsabilidade começassem a comprometer a organização partidária. Hitler via aí a oportunidade de testar a lealdade de Goebbels e, através da reformulação da atividade partidária que este promoveria, minar o prestígio de Strasser.

"Desde o momento em que comecei a organizar o partido", registra sua Conversa de Mesa, "decidi nunca preencher um cargo até que tivesse encontrado o homem certo para o ocupar. Mesmo quando os membros mais antigos do partido se queixavam da liderança política em Berlim, esperei até que lhes pudesse garantir que encontrara no Dr. Goebbels o homem que estava procurando. Ele possui dois atributos sem os quais ninguém poderia dominar as condições em Berlim: inteligência e o dom da oratória. Depois de estudar, a convite meu, a organização do partido em Berlim, ele localizou o problema na liderança juvenil e pediu-me carta-branca para introduzir as mudanças necessárias e expurgar do partido os elementos insatisfatórios. Nunca me arrependi de ter-lhe dado os poderes que pedira".

Goebbels não estava, de modo algum, ansioso por assumir a liderança do partido em Berlim. Tendo conseguido atrair a atenção de Hitler, era do seu mais alto interesse manter-se em sua órbita, o que significava ficar no sul, na Baviera, onde Hitler estava concentrando todo o esforço possível. "Não quero ficar atolado na confusão de Berlim", consignou ele em seu diário, "embora, se o Führer me desse o cargo de Chefe da Propaganda do Partido, esteja disposto a ir para qualquer lugar, para me desincumbir da tarefa".

Outro golpe, mais amargo do que a perspectiva de vir a ter que sair das proximidades do Führer, aconteceu então: Gregor Strasser foi por ele nomeado, a 26 de outubro de 1926, chefe de Propaganda e Publicidade do partido, sendo, logo depois, Goebbels destacado para Berlim. Assim, ardilosamente, Hitler instilou em Goebbels ressentimentos contra Strasser e neste uma sensação de falsa segurança; estimulou a lealdade de Goebbels para com ele conferindo-lhe uma tarefa administrativa de importância e deu a si mesmo a possibilidade de atingir novas platéias, tendo Goebbels como porta-voz. (Os termos do documento normativo da atividade de Goebbels incluíam a proibição de falar em público - proibição esta que podia ser parcialmente superada, desde que os discursos políticos se limitassem a platéias "fechadas", isto é, a indivíduos que, por definição, já eram membros do partido, de modo que grande parte do seu esforço se diluía na pregação para os convertidos.)

Na noite de 9 de novembro de 1926, o 3o aniversário do putsch nazista, Goebbels chegou a Berlim. "Um cinzento crepúsculo de novembro cai sobre Berlim quando meu trem chega a Potsdammer Bahnof e, menos de duas horas depois já me encontro pela primeira vez na plataforma do orador que será o ponto de partida para futuro desenvolvimento."

Daquela noite em diante sua vida tomaria novo rumo.

4. O PALCO

O palco de Berlim, onde Goebbels agora pisava, estava preparado para um drama de certa magnitude. Nos bastidores, espreitavam os mil e tantos nazistas que eram os únicos representantes do partido, até agora fracamente orientado por Schlange. Este, funcionário público por profissão, esteve sempre muito mais empenhado em conservar o cargo do que em promover a causa nazista. Apinhando-se no palco estavam os comunistas e social-democratas, que eram a maioria eleitoral na capital. No fundo do palco, sinistro de tanta corrupção, o "Antro do Ópio" (como Goebbels o chamava) - um porão na Potsdammerstrasse que era a sede oficial da Gau de Berlim.

Ele achava o nome bastante apropriado: "Os raios do sol nunca chegavam ali. A luz elétrica ficava acesa dia e noite. Mal se abria a porta, uma nuvem de fumaça de mil cigarros avassalava as narinas. Montes de jornais velhos e arquivos mais velhos ainda entulhavam o local. Na ante-sala, os membros desempregados do partido costumavam ficar conversando, matando o tempo. Havia um pretenso administrador que, orientado somente pela memória, anotava num livro a entrada e saída de dinheiro. Era impossível qualquer trabalho sistemático em ambiente tão confuso. As finanças eram uma barafunda e a Gau de Berlim só tinha dívidas.

Goebbels escreveu imediatamente a Hitler pedindo carta-branca para "expurgar o partido de todos os elementos insatisfatórios". "Você só é responsável perante a mim", respondeu-lhe o Führer. Goebbels mandou então emoldurar a carta e a pendurou na parede do novo escritório que alugou na Lützowstrasse. "Achei que seria bom", escreveu ele em Batalha por Berlim, "que houvesse prova visível da minha autoridade, pois pretendia ser implacável na reorganização do partido. Se alguém pretende ser Gauleiter [Gau significa líder], primeiramente tem de preparar sua Gau para que seja capaz de ser liderada".

Apesar da urgente necessidade de aumentar a filiação partidária no norte, Goebbels pôs-se implacavelmente a trabalhar no pretendido expurgo, expulsando 400 dos membros de Berlim. "Os que não contribuíam com dinheiro ou com trabalho foram eliminados. Preferia uma filiação menor, mas digna de confiança, a um monte de desocupados que, além de nada pagarem, ainda debochavam do esforço dos outros."

A 1° de janeiro de 1927 ele dirigiu-se aos 600 membros restantes do partido, exigindo 3 marcos de cada um como contribuição mensal para os fundos do partido e ordenou àqueles que não se submetessem à sua liderança e às suas ordens que deixassem o recinto imediatamente. Ninguém saiu.

"Temos uma tremenda tarefa pela frente", prosseguiu. "O partido aqui em Berlim é como um cordeiro desgarrado, à mercê de bandos de vermelhos que, ocultos, estão prontos para devorá-lo. Há quase 5 milhões de habitantes em Berlim e somos 600, anônimos no meio deles. Temos de derrubar a parede do anonimato. Os berlinenses têm de ouvir-nos e falar de nós. Podem insultar-nos, caluniar-nos, investir contra nós, surrar-nos, mas temos de fazê-los falar de nós, esta a grande tarefa. E juro-lhes que, embora sejamos hoje apenas 600, em seis anos seremos 600 mil."

Embora, por nomeação de Hitler, Gregor Strasser fosse diretor da propaganda nazista, não há quase evidência de que se tenha dedicado à tarefa, exceto apoiar o partido em seu jornal Nationalsozialistische Briefe (agora adequadamente impresso e consideravelmente aumentado). Ele não tinha o dom de atrair a atenção das massas, e na verdade foi Goebbels quem se encarregou da tarefa de derrubar "a parede do anonimato", antecipando-se à cobiçada nomeação para o cargo de propagandista do partido.

A propaganda é um meio utilizado para fazer alguém aceitar um principio, uma teoria, uma doutrina através das emoções. Embora falem alegremente de "educar as massas", os propagandistas apelam não para a razão, mas sempre para a emoção e o instinto. A própria palavra propaganda só apareceu em 1622, quando o Papa Gregório XV convocou uma Comissão de Cardeais para orientar a difusão da palavra cristã pelas missões estrangeiras. A comissão foi chamada Congregatio de Propaganda Fide - Congregação para a Propagação da Fé, e funcionava como uma comissão de qualquer outra sociedade missionária - escolhendo missionários e despachando-os para o estrangeiro. Mas não demorou para que a palavra ganhasse significados outros que não propagação de crenças religiosas, como, por exemplo, agressão nacional, proselitismo político, deturpação de fatos e censura por supressão, coisas muito convenientes para Hitler. Essas sinistras atividades não tinham nada de novas. O Oráculo de Delfos do mundo antigo, pela hipnose, comandara as empresas colonizadoras dos atenienses. Tucidides, em sua história da Guerra do Peloponeso, revelou que as facções em confronto aumentavam seu domínio sobre os não convencidos pela contínua deturpação dos fatos. Platão, em sua República, preconizava o banimento de todos os escritores cuja influência fosse desagregadora, e que para o lugar deixado por eles fossem nomeados publicistas de tendência republicana; as paredes de Pompéia estavam cheias de lemas de propaganda eleitoral e a Inquisição Espanhola armou-se com todas as formas de censura que ajudassem seus objetivos. Evidentemente; a relativa inocência de um conceito como o do Papa Gregório pode ser conspurcada por qualquer regime totalitário, pois é tão fácil propagar as mentiras quanto as verdades.

Portanto, a propaganda, como William Albig diz acertadamente em seu livro Public Opinion, "aparecia sempre que qualquer liderança tentava unir as opiniões de um povo, desde a propaganda política de um Júlio César à propaganda da Igreja Católica Romana, à propagação da Lenda Napoleônica, ao propagandismo de Potemkin em favor de Catarina a Grande, à propaganda panfletária de Sam Adam para a Revolução Americana, à propaganda do Norte e do Sul na Guerra Civil Americana, às propagandas que proliferaram, em todos os lados, na Segunda Guerra Mundial".

Bismarck, com quem Goebbels entusiasticamente comparava Hitler, também era um mestre da propaganda. Grande parte da leitura de Goebbels, nos seus primeiros tempos em Berlim, foi dedicada ao estudo dos métodos de Bismarck, que haviam incluído cartas forjadas, pretensamente vindas de Roma ou Paris, que ele conseguia fazer publicar na imprensa, a criação de "turmas especiais de boateiros" (Gerüchtemacher), para espalhar o desânimo na oposição, e a organização do "bureau" de imprensa estrangeira.

Goebbels usaria "material de impacto" contra seus adversários e não perdeu tempo em reunir dossiês repletos de "fatos" sobre comunistas, judeus, capitalistas liberais e todos os antinazistas para usá-los de qualquer modo eficaz - incluindo a distorção - quando chegasse o momento. Enquanto aguardava o momento adequado, Goebbels recomendava métodos grosseiros, barulhentos e destinados apenas a atrair atenção - desfavorável de preferência, já que havia muito mais publicidade em ser vilipendiado do que em ser elogiado.

Os métodos que tinha à disposição, com o dinheiro que podia usar, eram poucos. Cada Gau procurava manter-se com suas próprias verbas e, como Goebbels observara, Berlim estava em péssimo estado. A publicidade através da imprensa, de qualquer tamanho razoável, a publicidade postal em grande escala, os tapumes utilizados pelos agentes publicitários estavam todos proibidos pelos custos. A transmissão radiofônica, que mais tarde Goebbels transformaria no grande veículo de difusão da filosofia nazista, não era dirigida em bases comerciais, mas, ainda que fosse, seria dispendiosa demais, como outras formas de publicidade em larga escala. Portanto, restavam-lhe apenas os meios mais simples de campanha, que se revelaram, força é reconhecer, bastante eficazes.

Goebbels começou com pequenos cartazes, que os membros do partido colavam em colunas cilíndricas, que eram colocadas nas esquinas das ruas especialmente para essa finalidade, sem ônus para o usuário, sendo considerado crime o dano de qualquer tipo aos edifícios e locais públicos. Mas, por serem livres, havia uma corrida contínua a essas colunas. Os colocadores de cartazes, competindo pelo espaço nessas colunas, ficavam à espreita, aguardando a oportunidade de poder substituir um cartaz por outro, valendo-se também dos meios os mais engenhosos, inclusive os efeitos aplicados às comédias de pastelão, como queda de escada etc., para chamar a atenção dos passantes. Os cartazes eram desenhados pelo próprio Goebbels, usando o conhecimento de artes gráficas que adquiriu na redação do jornal dos Strassers. 
Ele usava tipos grandes e tinta vermelha para destacar uma frase provocativa, como o KAISER DA AMÉRICA FALA EM BERLIM, embaixo da qual, em tipos menores mas também destacados, um ataque ao "Plano Dawes" e a seu negociador, o Ministro das Relações Exteriores, Gustav Streseman. Raramente havia referência direta a Hitler ou aos nazistas. Os cartazes pretendiam apenas provocar curiosidade - objetivo que conseguiram a ponto de atrair a atenção da imprensa liberal - e atingir, por exemplo, um alvo: considerar maléfico o "Plano Dawes", porque exigia fidelidade ao Tratado de Versalhes, e Streseman um traidor. Goebbels absorvera completamente a análise que Hitler fizera da propaganda em Mein Kampf. Um dos princípios ali preconizados era: "A verdade tem de ser sempre adaptada para ajustar-se à necessidade. O que diríamos de um cartaz que, pretendendo anunciar nova marca de sabonete, insistisse nas qualidades das marcas rivais? Naturalmente sacudiríamos a cabeça. O mesmo aconteceria com um cartaz de propaganda política que incorresse no mesmo pecado. O objetivo da propaganda não é tentar julgar direitos conflitantes, dando a cada um o que merece, e sim salientar exclusivamente o direito que estamos defendendo. A propaganda não deve investigar a verdade objetivamente. Na medida em que a verdade pende para o outro lado, deve-se apresentá-la de acordo com as regras teóricas da justiça, e só o aspecto da verdade que nos é favorável deve ser manifestado".

Além disso, Goebbels recebera de Hitler, nessa época, a cópia de uma diretiva que o Führer mandara incluir na Segunda Parte do Mein Kampf. Ela vinha acompanhada de uma nota confidencial explicando que, embora a diretiva interessasse principalmente a Gregor Strasser, como Chefe da Propaganda, Goebbels deveria observar atentamente o seu conteúdo "porque é seu o trabalho de aumentar nossa força em Berlim". (Dar a Goebbels um vislumbre confidencial da diretiva era um exemplo típico da habilidade de Hitler em criar correntes de suspeita entre seus executivos. Ele prosseguia lentamente em seus desígnios contra Gregor Strasser, cujo apoio ainda lhe era necessário, sem esquecer um instante sequer que Strasser tentara assumir o controle do partido enquanto ele, Hitler, estava na prisão. A diretiva dizia o seguinte: "O objetivo da propaganda é atrair seguidores. A tarefa da organização é conquistar novos membros. O seguidor de um movimento é aquele que se declara concorde com seus objetivos. O membro é o que luta por ele. Haverá dez seguidores para cada um ou dois membros, no máximo. A filiação como membro requer espírito ativo e, assim, se aplica somente a uma minoria. Portanto, a propaganda cuidará incansavelmente para que uma idéia conquiste adeptos, enquanto que a organização tem de observar atentamente que apenas os mais valiosos dentre os adeptos sejam transformados em membros. Depois que a propaganda conscientizou todo um povo a respeito de uma idéia, a organização pode obter o máximo de benefícios com a ajuda de apenas um punhado de pessoas".

Goebbels não tinha qualquer conhecimento de estratégia militar, jamais viu ação em qualquer frente e, à parte uma breve visita a Genebra, permaneceu na Alemanha, principalmente em Berlim, durante toda a sua vida de nazista. Contudo, ele poderia ter adotado como lema a enérgica conclamação do Marechal Foch a seus comandados ("Meu centro está cedendo, minha direita está recuando; a situação é excelente; atacarei!") no próximo movimento. (Não é sem propósito que o jornal de propaganda nazista que ele em breve fundaria seria chamado Der Angriff [O Ataque].)

Sendo o ataque o melhor método de defesa e sendo os movimentos revolucionários feitos, conforme acreditava, por oradores, e não por escritores, ele entrou no campo inimigo e, para uma reunião a 11 de fevereiro de 1927, alugou o Salão Pharus, situado no coração comunista da cidade. Os cartazes anunciando a reunião foram impressos numa imitação direta dos anúncios dos comunistas e a fraseologia tinha a mesma conotação:

"O Estado Burguês aproxima-se do fim! Temos de forjar um novo Estado! Trabalhadores: o destino da nação alemã está em suas mãos!"

Não existe meio mais eficaz para atrair a atenção do que provocando uma cena violenta, particularmente se for prefaciada por uma verdadeira parada pseudomilitar, com agitação de bandeiras etc. Goebbels deu ordem para que todo membro do partido desfilasse na frente da sede, na Lützowstrasse, com bandeiras e marchasse para o Salão Pharus. Ele também teve um encontro com Kurt Daluege, o chefe das Tropas de Assalto. Esta formação, que inicialmente era a guarda-costas de Hitler, crescera muito, transformando-se num considerável corpo paramilitar especializado em trabalhos violentos para o partido.

Daluege (que por profissão era engenheiro civil, encarregado dos depósitos de lixo da cidade, considerado pelos que o conheciam pouco mais que um cabeça dura) fora encarregado de presidir a reunião e "guardar" a sala com seus esbirros. Como Goebbels escreveu mais tarde, em Batalha por Berlim: "Na verdade, eu criara deliberadamente uma situação que só precisava que se acendesse a mecha para que se desse uma explosão".

Os comunistas, irritados pela maneira como haviam sido desafiados em seu próprio covil, ameaçaram com derramamento de sangue, se a reunião fosse realizada. "Sua imprensa superou-se em ameaças horrendas. Afirmava que nos seria feita uma recepção calorosa - tão calorosa que não teríamos vontade de voltar."

As Tropas de Assalto de Daluege haviam recebido ordens de comparecer à paisana e se misturar com a platéia e com a multidão fora da sala. E quando os membros do partido - metidos em uniforme completo, com botas de montaria e braçadeiras - cruzaram, empertigados, as ruas, com suas bandeiras e suas suásticas, atraíram grande número de parasitas, curiosos por saberem que diabo era aquilo. Naturalmente houve zombarias, apupos, aplausos e reações várias, por parte dos que passavam. No Salão Pharus, uma atmosfera sombria e ameaçadora pairava no frígido ar de fevereiro. Um diretor de cinema poderia ter feito um verdadeiro clássico da tela com os cortes de uma câmara voraz. Esse trabalho mostraria as faces todas da brutalidade, da ameaça e do ódio; as mãos, armadas de maças e soqueiras com que se armaram os contendores, teriam sido evidentes; e a trilha sonora - se possível na época - seria uma sugestão de violência. Na verdade, houve violência. Daluege, na Presidência, mal declarara aberta a reunião quando partiu um berro do fundo do auditório. Sem dúvida foi um comentário insensato sobre o tamanho da agenda, mas muito antes que tal comentário se concluísse, Daluege pegou uma garrafa de água de cima da mesa e atirou-a na direção de onde partia o comentário. Num instante, canecas de cerveja, garrafas e uma mistura surpreendente de ferragens voaram pelo auditório, enquanto nazistas e comunistas se pegavam em violenta briga. Goebbels, sentado à direita de Daluege, ordenou claramente: coitus interruptus - uma frase-código que ele cunhara para a ocasião - e seis membros das Tropas de Assalto que estavam no fundo do auditório agarraram o intruso e o surraram brutalmente, ao mesmo tempo que as portas laterais se abriram e o corpo principal das Tropas de Assalto invadiu o recinto e começou a cuidar de qualquer um que oferecesse resistência. A polícia, que se mostrou singularmente relutante em participar da festa - talvez a corrupção tivesse funcionado bem - acabou aparecendo. Fizeram-se prisões - principalmente de bodes expiatórios - e os feridos receberam alguns cuidados.

"Tudo isto demorara mais de trinta minutos", diz Goebbels a respeito do acontecido. "Ordenei então que os membros do partido e das Tropas de Assalto que haviam sido feridos fossem levados para o palco, onde poderiam ser vistos claramente e ouvidos os seus gemidos. Falei à platéia sobre um assunto que deveria parecer improvisado - 'O Desconhecido Soldado da Tropa de Assalto' - ordenei que a intervalos de dez minutos, durante meu discurso, os feridos fossem levados dali, um a um, com seus sangrentos ferimentos claramente visíveis. Constatei que o método era extremamente eficaz para atrair atenção." O principal ator do drama nazista de Berlim estreara no palco de onde não mais sairia.


5. COMEÇA O DRAMA...

Referindo-se a si mesmo, Goebbels disse que "nascera para o drama". Havia, sem dúvida, certa justificativa para fantasias desse tipo, de que estão cheios seus diários. O malogro das tentativas que fez no sentido de ingressar no teatro, solicitando, imprudentemente, um emprego de produtor, não se deveu propriamente a um defeito de orientação, embora não se possa dizer que tenham sido bem dirigidas. Tudo nele revelava a vocação para o drama. As Reuniões de Nuremberg, a apresentação dos seus discursos e os recursos de que se utilizava para provocar tensão dramática eram astutamente estudados. Ele jamais poderia criar a atmosfera emocional que Adolf Hitler inspirava, mas o controle que tinha do gesto e da palavra era igualmente eficaz, de um modo diferente. Ele escrevia seus discursos com imenso cuidado, usando tintas coloridas para distinguir as diferentes tonalidades de ênfase e todos eles eram ensaiados diante de um espelho triplo, em seu quarto, na residência dos Steigers, no Tiergarten - acomodação que os Strassers lhe arranjaram tão logo chegou a Berlim.

Os Steigers eram ricos e importantes. Todas as pessoas de posição, em Berlim, cultivavam a amizade deles. Johann Steiger era membro da junta editorial do Berliner Lokalanzeiger, que pertencia a Alfred Hugenberg, um dos muito respeitados industriais que forneciam dinheiro ao partido nazista e arrebanhavam seguidores nas camadas mais altas - seguidores que auxiliavam monetariamente o partido com o dinheiro que receberam do confisco de propriedades que possuíam, na esperança de que o grande projeto anunciado por Hitler para o Terceiro Reich os reabilitasse. Em troca da esperança, Hitler, Goebbels etc. iam sugando-lhes o dinheiro. "Esta gente é companhia boa e importante", disse Goebbels em carta a seus pais. "Frau Steiger tem dinheiro e freqüentemente recebe a melhor sociedade, descendentes da nobreza germânica, figuras importantíssimas da realeza, e todos admiram meus discursos, a minha eloqüência. Estão certos de que tenho um grande futuro." As "figuras importantíssimas da realeza", uma exageração de Goebbels, não eram mais que o Grão-Duque de Mecklenburg e Hesse, o Príncipe August Wilhelm von Hohenzollern, o Duque Ernst August de Brunswick, o Príncipe Christian von Schauberg-Lippe, por exemplo - e eles absorviam o encanto e servilismo de Goebbels como esponjas. Na elegante sala de estar dos Steigers, eles ouviam de bom grado os discursos que Goebbels ensaiava, discursos para cuja elaboração se inspirava nas melodias nacionalistas que extraia do piano "Bechstein" que Johann Steiger ganhara de presente de Natal de Helene Bechstein, mulher do fabricante, ardorosa hitlerista e contribuinte efetiva do partido. "O pequeno Doktor", disse um deles, "transmite depressão, mas inspira confiança em si mesmo, se não no futuro da Alemanha".

No começo de 1927, o futuro econômico da Alemanha foi superficialmente avivado por imensos empréstimos - cerca de sete bilhões de dólares ao todo - que os Estados Unidos fizeram ao tesouro germânico nos termos do "Plano Dawes".

"A República", diz William L. Shire em Ascensão e Queda do Terceiro Reich, "fez empréstimos para pagar as reparações a que estava obrigada e aumentar os serviços sociais que prestava e que eram o modelo do mundo. Os estados, cidades e municípios fizeram empréstimos para financiar os melhoramentos necessários, como a construção de aeródromos, teatros, estádios esportivos e piscinas.

A indústria, que eliminara suas dívidas na inflação, tomou bilhões emprestados para se reequipar e racionalizar os processos de produção, produção que em 1923 caíra para 55% da registrada em 1913, e subiu para 122% aí por volta de 1927. Pela primeira vez, desde a guerra, o desemprego caiu para menos de um milhão - 650.000 - em 1928. Naquele ano, as vendas a varejo aumentaram 20% sobre 1925, e, no ano seguinte, os salários reais eram 10% mais altos que os dos quatro anos anteriores. As classes média e baixa, os milhões de lojistas e pequenos assalariados aos quais Hitler tinha de recorrer em busca do apoio de massa, compartilhavam da prosperidade geral".

Contudo, essa prosperidade geral perderia substância em meados daquele ano. Por volta de junho, a Bolsa de Valores mostrava sinais de fraqueza e não se registrou nenhuma recuperação em bases sólidas até que Hitler subiu ao poder como Chanceler, pois o colapso da Wall Street, em outubro de 1929, teve reflexos na economia alemã, como de resto na economia mundial. Sem a ajuda do dinheiro americano, que, segundo o Presidente Calvin Coolidge, fora despejado aos montes pelo "Plano Dawes", a economia alemã começou a demonstrar toda a sua fragilidade. Como diz Shirer, houve períodos de ilusória prosperidade; mas a base da economia nacional era insegura, e Goebbels, cuja ignorância em economia era total, fez profecias de depressão, porque sentia - muito acertadamente - que o partido só poderia progredir em meio ao desastre do desemprego em massa e da depressão. "O colapso, moral, físico e financeiro está às nossas portas", clamava e escrevia incessantemente. E, de acordo com a regra básica da propaganda, apresentava suas provas - provas estas que naturalmente não diziam nada sobre nada que esclarecesse o ponto de vista oposto. E como se tornava cada vez mais evidente que a onda de prosperidade começava a desfazer-se, ele foi encarado como um oráculo. A filosofia nazista começou a polarizar a atenção de todos, homens de sociedade, negociantes e gente comum.

Como a principal tarefa de Goebbels, na qualidade de Gauleiter, era recrutar novos membros e seguidores para o partido, mas também ter em mente a distinção entre eles, conforme indicada pelo Führer, o trabalho que vinha desenvolvendo nesse sentido começou a apresentar resultados. Três dias depois do confronto de fevereiro, no Salão Pharus, recebeu 2.600 propostas de filiação ao partido, alem de 500 de ingresso nas Tropas de Assalto de Daluege. Goebbels logo organizou outra reunião, na qual um velho pastor, chamado Fritz Stucke, foi surrado pelas Tropas de Assalto e as autoridades do hospital comunicaram seus ferimentos à polícia. O Assistente do Comissário era um homem chamado Bernhard Weiss, um judeu culto, que proibiu imediatamente as atividades dos nazistas em toda a Grande Berlim. A proibição, por sua vez, ganhou as manchetes dos jornais, resultando em boa publicidade para Goebbels, além de enriquecer a linha da caricatura mordaz que Hitler histericamente traçou no Mein Kampf do arquétipo do judeu e que Goebbels fez questão de servilmente conservar na sua propaganda partidária. Mais tarde, porém, revelou-se que o Pastor Stucke havia-se afastado de sua igreja por causa do alcoolismo crônico e que na verdade não era um democrata, e sim pró-nazista. (Mais tarde ele foi recompensado pelo partido com um cargo a ser exercido na pequena cidade de Koeslin, onde poderia beber até morrer.) Toda essa publicidade foi um achado valioso para Goebbels; ele estava certo, ao escolher métodos os mais vulgares para atrair atenção.

O insulto era realmente uma arma muito mais poderosa nas mãos dos nazistas do que o elogio. O insulto podia ser torcido com mais facilidade. Ele podia ser transformado em injustiça, inveja, vingança ou em qualquer tipo de humilhação. Desse modo, o insultado, o invejado e o ferozmente punido podia conquistar não só simpatizantes como também seguidores.

A proibição policial apresentava como justificativa o fato de que desde a chegada de Goebbels a Berlim vinham ocorrendo incidentes contínuos, causados sempre pelas Tropas de Assalto, choques nas reuniões e não poucas mortes misteriosas com inferências políticas. Não há dúvida de que a polícia estava ficando desalentada, por causa do número cada vez maior de procissões, bandeiras e desfiles com bandas tocando música que evocavam emoções perigosas. Na tensa atmosfera emocional que se criou, Goebbels despejava seus discursos, numa linguagem carregada de ironia e desprezo, depois de entrar dramaticamente no momento preciso em que a platéia começava a inquietar-se. Ele era um agitador e um perturbador da paz que à policia cabia manter. Mas, justificada ou não, a proibição foi singularmente ineficaz. Goebbels continuou falando em reuniões "particulares", realizadas no salão dos Steigers ou nas cervejarias, com os convites sendo feitos oralmente, não mais por meio de cartazes ou pela imprensa. Era muito simples fundar clubes "sociais", ostensivamente para prática de esportes, jogos de salão e debates literários. Tudo o que aconteceu, como resultado da proibição, foi que as atividades políticas do partido tornaram-se clandestinas. A parte visível do movimento disfarçou-se de reuniões sociais.

E a proibição, que Goebbels explorou cuidadosamente, foi citada como manifestação do medo que a República sentia diante do crescente poder do partido. Assim, segundo ele:

"Eles logo pararam de rir da nossa inflexível determinação. Começaram a nos insultar e denegrir. Quando a perseguição e a maledicência fracassaram, eles atiraram o Terror Vermelho contra nós, mas este nos encontrou lutando valorosamente. O adversário começou a espumar e a recorrer à anarquia e à ação arbitrária. Agindo contra suas próprias pretensas convicções democráticas, ele proibiu nosso partido. Agora não existimos mais - assim pensa ele. Com uma penada, um jagunço judeu pretendeu eliminar-nos da lista das realidades. Voltamos a ser anônimos. A simples menção do nosso nome e a simples vista da Suástica estão abalando as fundações da República. Quem dentre nós pensaria que somos tão fortes assim?"

"Negado o direito de falar", prosseguiu Goebbels, "tornou-se essencial que o partido conseguisse outra plataforma de onde se pudesse lançar à propaganda nacional-socialista. Embora considerasse a palavra escrita relativamente inútil, em comparação com o poder do orador, fui obrigado a recorrer a ela, ainda que temporariamente".

Pensando na forma de apresentar a palavra escrita, decidiu Goebbels que a melhor seria através de um jornal sobre o qual tivesse completo controle e que fosse independente do Berliner Arbeiterzeitung.

"Nunca me esquecerei que, certa noite, estávamos reunidos num pequeno grupo pensando em como se chamaria o novo jornal. De repente eu tive uma inspiração: certamente só podia haver um nome para o nosso jornal: Der Angriff ["O Ataque"]. O próprio nome tinha seu valor propagandístico, porque tudo o que queríamos era atacar."

O primeiro número, publicado numa segunda-feira, 4 de julho de 1927, foi feito numa gráfica que não dispensou à tarefa muito cuidado, já que lhe havíamos pedido um crédito de três meses. O papel absorvia tinta como um mata-borrão. Praticamente seus únicos compradores eram membros do partido que haviam recebido ordens de assiná-lo antecipadamente. Quanto ao seu conteúdo, dificilmente poderia ser mais vulgar. Os cartuns eram espalhafatosos e mal desenhados; a tipografia nada concedia ao bom-gosto e o editorial era virulento. Embora grosseiramente elaborado, o panfleto revelou-se eficaz para a causa. (Não tinha qualquer valor noticioso e só se interessava pela política e em catar e denunciar corrupção administrativa.)

Passado um mês já O Angriff provocara confusão suficiente para repor Goebbels na berlinda. Bernhard Weiss, Assistente do Comissário, foi violentamente atacado, tanto com palavras como pela caricatura. Fazendo explodir o rancor à raça judia, Goebbels transfigurava Bernhard Weiss, que era judeu, num elemento repulsivo, num vigarista, num réptil, numa aranha faminta, tratando-o sempre por Isidore, nome que em alemão representa toda a sorte do mal. "Esta é a face da nossa pretensa democracia", dizia uma das legendas; "maculada e destorcida pela covardia e pela hipocrisia".

"Tornamos Weiss responsável por todos os males que a policia nos causou, e nos termos mais condenáveis", escreveu Goebbels, mais tarde, em Batalha por Berlim. Naturalmente a tática adotada pela direção do jornal fez que contra ele surgissem interditos e ações por calúnia e difamação, que deveriam ter resultado em sentenças de prisão contra o editor e os redatores. O fato de não ter isso acontecido subentende o medo que havia das represálias dos nazistas, com suas Tropas de Assalto e seu grupo de espiões e conspiradores, que, embora colocados fora da lei, eram muito ativos. O medo subjacente era, de certo modo, compreensível. Weiss foi atacado e surrado certa noite, quando passeava sozinho, e alguns dos seus atacantes eram seus próprios policiais, que posteriormente afirmaram tê-lo confundido com um delinqüente, no beco estreito e mal-iluminado. Contudo, parece mais provável que o ataque tenha resultado de uma prematura transfusão de sangue nazista para as veias policiais. De qualquer modo, Goebbels se lembraria de que nos primeiros tempos de existência de O Angriff "meu único desejo era ver o dia em que chegaremos ao QG da Polícia, bateremos à porta e diremos: Herr Weiss, sua hora chegou".

A hora de Weiss e de grande número de outras pessoas se aproximou ainda mais com a notícia de que haveria eleições nacionais a 29 de maio de 1928. Para que não pairassem dúvidas quanto à linha democrática da República, o partido nazista teve permissão de agir abertamente de novo, deixando livre o caminho para Hitler. A intenção de Hitler era, como sempre fora, fazer crer que a opção pelo Nacional-Socialismo parecesse mais uma escolha livre do povo que uma imposição; e foi isto o que aconteceu, embora não sem a ajuda de muitas circunstâncias fortuitas que colocaram o poder real ao alcance da mão do Führer.

Em 1928 ele sequer tinha o direito de concorrer às eleições para Deputado do Reich. Hitler era um apátrida, tendo renunciado à cidadania austríaca a 7 de abril de 1925, na esperança de que a República Alemã lhe oferecesse a cidadania alemã por serviços prestados à pátria durante a guerra. Como a contribuição que deu durante o conflito não tivera qualquer distinção, exceto a condecoração, por méritos extremamente dúbios, com duas Cruzes de Ferro, era pouco provável que isto provocasse, no Departamento de Naturalização, a disposição para atender à expectativa de Hitler, e realmente não provocou. Ele tentou arrancar uma recomendação de amigos influentes na Baviera para que lhe conferissem a cidadania alemã; mas esses amigos ou eram menos influentes do que ele supunha, ou menos amistosos. Contudo, a representação potencial nazista no Reichstag era suficientemente simples para dar um jeito de indicar alguns dos seus favoritos para as eleições. Goebbels foi uma das primeiras escolhas do Führer. Isto colocou o Gauleiter de Berlim numa posição que seria embaraçosa para qualquer outra pessoa. Há meses Goebbels vinha atacando o Reichstag em artigos publicados em O Angriff.

"Há grandes saguões para facilitar a digestão, cheios de longas fileiras de cadeiras de braços estofadas que oferecem excelentes oportunidades para uma soneca. Usar o termo soneca é ser muito moderado; se chegamos ali à tarde, ouvimos o ressonar coletivo e satisfeito dos deputados. Os representantes do povo alemão estão sempre descansando do extenuante trabalho realizado pela pátria."

Caracteristicamente, ele justificou a guinada que teve de dar com agressiva confiança.

"Entraremos no Reichstag para nos abastecermos no Arsenal da Democracia com suas próprias armas. Nós nos tornaremos deputados do Reichstag para mudar o modo de pensar de Weimar com o apoio de Weimar. Se conseguirmos plantar no Parlamento sessenta ou setenta dos nossos agitadores e organizadores, então o próprio Estado equiparará e pagará a nossa máquina de combate. Qualquer um que seja eleito para o Parlamento está acabado, se pretende ser apenas um parlamentar. Mas se, com seu arrojo inato, preservar na luta implacável contra o crescente aviltamento da nossa vida pública, então ele não se transformará num parlamentar apenas, mas continuará sendo o que é - um revolucionário... Nós, que temos pregado, centenas, milhares de vezes; a mensagem de fé numa nova Alemanha... Nós não pedimos apenas votos, exigimos e esperamos convicção, devoção e paixão. O voto não passa de um expediente, para vocês e para nós. Pouco ligamos se construímos uma esterqueira fedorenta, porque estamos na disposição de limpar o esterco."

Havia 500 cadeiras no Reichstag, e se Goebbels estava esperando seriamente conquistar 60 ou 70 delas, não demoraria a desiludir-se.

De um eleitorado de 30 milhões os nacional-socialistas conseguiram somente 800.000 votos, 50.000 dos quais foram conquistados em Berlim - aparentemente graças aos esforços de Goebbels como Gauleiter. Embora pequena a votação conseguida, os nazistas conquistaram 12 lugares no Reichstag - um dos quais coube a Goebbels. "Agora o espetáculo pode começar" escreveu ele.

6. E CONTINUA !

Em Hamburgo, durante a noite daquele dia de eleições, 20 de maio, várias pessoas, nas ruas e em suas próprias casas, foram vítimas de um vapor esverdeado que se abateu sobre a cidade e só se dissipou às primeiras horas do dia seguinte, graças a um vento fortuito que começou a soprar da baia para o interior. Nos hospitais para onde foram levados os atingidos, o vapor entrando pelas janelas também fez que médicos e enfermeiras desmaiassem de náuseas. Houve, ao todo, 28 casos de morte. Os que participaram da guerra identificavam facilmente o vapor: era gás de cloro, ou algo estreitamente relacionado com ele. Investigações revelaram que ele havia escapado de cilindros existentes numa fábrica de motores navais situada próximo das docas. No inquérito realizado, afirmou-se que os cilindros de cloro haviam sido estocados para ser usados como alvejante, mas vários jornais liberais sugeriram claramente que ele vinha sendo armazenado com a finalidade de ser aplicado em guerra química. "Contra quem?" indagavam. "O Tratado de Versalhes pode ser um documento injusto, sob alguns aspectos, mas a proibição que estabelecia para o uso dos gases, em qualquer forma, exceto para fins industriais, é sensata."

Naturalmente, os comunistas tentaram aproveitar-se do acontecimento, apresentando provas muito mal engendradas, para afirmar que os nazistas praticavam o terrorismo. Por sua vez, Goebbels teceu uma tapeçaria maravilhosa de mentiras destinadas a "Somente uma Alemanha forte pode convencer - e em numerosos casos convenceu - os indecisos de que os comunistas estavam importando, em sacos de milho, não só cloro e outros gases irritantes, como também ratos inoculados com a peste bubônica que seriam soltos contra as multidões, a menos que os nazistas, conquistando o poder, pudessem impedir esses cometimentos desumanos.

A prova apresentada por Goebbels em apoio da sua acusação não teria, por si só, convencido um ingênuo menino de cinco anos, mas, revestida da linguagem insolente do Gauleiter, atraiu atenção. Seguiram-se, como seria de prever, várias ações judiciais contra O Angriff, terminando todas em pesadas multas impostas ao redator e editor. Porém, se anteriormente à sua eleição para deputado Goebbels não pagara as multas a que fora condenado, eleito, com imunidade parlamentar para alegar, é que não pagaria mesmo. Desse modo, nem Goebbels, nem os que com ele injuriavam os comunistas e os partidários de agremiações políticas que pudessem constituir obstáculo à caminhada dos nazistas cumpriram sentenças de prisão. Aliás, nunca ninguém explicou satisfatoriamente a presença do cloro. Certo que na forma de gás ele não poderia ser destinado a uso como alvejante. Apesar disso, a questão estava mesmo fadada a cair no esquecimento.

A cadeira de Goebbels no Reichstag assegurava-lhe que suas palavras seriam ouvidas por toda a Alemanha. Ele permaneceu como Gauleiter de Berlim, mas gradativamente foi-se transformando em figura nacional. Para sua imensa alegria, a 9 de janeiro de 1929, Hitler reorganizou seu "gabinete". Gregor Strasser, ainda muito útil para o Führer para receber o tratamento que lhe estava reservado, foi nomeado Chefe da Organização - posto que era virtualmente o de subcomandante do partido - e Goebbels recebeu o cargo que ocuparia até a queda do Terceiro Reich: Diretor de Propaganda do Reich.

Em sua tarefa agora oficial, ele tinha autoridade absoluta e tirou disso bom proveito. Ele compartilhava (ou imitava) do desprezo de Hitler pelas massas como este a apresentara no Mein Kampf.

"O poder receptivo das massas é muito limitado e a capacidade de compreensão que revelam é fraca. Por outro lado, esquecem muito depressa. Sendo assim, a propaganda eficaz é aquela que se limita a uns poucos elementos essenciais e estes devem ser expressados, tanto quanto possível, em fórmulas estereotipadas. Esses lemas devem ser repetidos persistentemente, até que o último indivíduo tenha compreendido a idéia apresentada. Se este princípio não for seguido, e se se tentar fazer abstração ou generalizar, a propaganda será ineficiente, pois o público não poderá digerir ou guardar o que lhe é oferecido. Portanto, quanto maior o escopo da mensagem, tanto mais necessário se torna descobrir o plano de ação psicologicamente mais eficiente."

Goebbels sabia que o modo mais eficiente de fazer qualquer grande platéia aceitar uma idéia era prepará-la emocionalmente. A aplicação da música adequada, do cerimonial certo, da solenidade e do ritual convenientes predisporiam qualquer platéia a aceitar qualquer mensagem. Nunca se duvidou do efeito hipnótico dos gritos, nas reuniões, dos lemas, das canções patrióticas, dos pés em marcha rítmica, dos holofotes caindo sobre as formações de homens uniformizados, desde que aplicados com precisão, para não se tornarem risíveis. E ele contou com a sorte de ter como ouvinte uma nação cujo senso de humor era reconhecidamente pesado. (O passo de ganso nazista teria sido banido dos campos de parada britânicos ou americanos por explosões de gargalhadas.) Sendo o chauvinismo, a agressividade e o sentimentalismo elementos dominantes do caráter alemão, fácil foi para os filósofos do Nacional-Socialismo levar o povo germânico a aceitar a sua pregação, com freqüentes apelos à "pureza racial" e a outros papos-furados de igual teor, bastando-lhes apenas colocar na tribuna oradores com língua bem afiada.

O próprio Hitler passou a poder falar em público, e falou, conseguindo, através do trabalho de relações públicas cuidadosamente organizado por Goebbels, enormes platéias em lugares como o "Sportpalast" de Berlim. "Aceitei como único objetivo", escreveu o novo Chefe da Propaganda, mais tarde, com espalhafatoso cinismo, "martelar na cabeça das massas estúpidas a aceitação de Hitler como o deus da Alemanha que despertava".

Mas reuniões como as do "Sportpalast" não passavam de ensaios para os fantásticos congressos de Nuremberg, aos quais Goebbels passou a dedicar-se com especial atenção a partir de 1929.

As reuniões do partido já se realizavam desde 1923, quando nazistas e ociosos se reuniram em Munique para ouvir críticas contra a odiada República de Weimar e para iniciar uma cerimônia que se tornou característica de todo o Parteitag - a Consagração das Bandeiras. Esse ritual começava com enfadonha explicação feita por Hitler do simbolismo do vermelho, do preto, do branco e do desenho da suástica, com uma exortação para que todos os que serviam sob o estandarte do partido jamais o abandonassem, exceto na morte, e nunca permitissem que qualquer judeu ou marxista o insultasse.

Depois disso, havia um desfile de Tropas de Assalto carregando a floresta de bandeiras da suástica para a "consagração" solene por Hitler, que permanecia imóvel, com seu braço estendido na saudação nazista.

A idéia das reuniões partiu de Julius Streicher, um pervertido, imbecil e sádico, que foi um dos primeiros seguidores de Hitler e que colaborou com o governo local, Willy Liebel, na organização da primeira delas, realizada em Nuremberg. (Munique e Weimar foram os outros locais.) Streicher, como Goebbels, tinha uma aptidão natural para a organização, apesar do consideravelmente baixo nível de inteligência que possuía; além disso, sua vocação para o melodrama era altamente desenvolvida. Contudo, a partir de 1929, Goebbels tomaria a si a organização das reuniões e centralizaria a atenção do mundo em Nuremberg, como o ponto focal das atividades dos nazistas.

Tendo conseguido o cobiçado cargo de Diretor de Propaganda do Reich, ele voltou-se de pronto para uma análise da propaganda das outras nações na guerra moderna, da qual a claramente mais bem sucedida era a aperfeiçoada pelos britânicos na guerra de 1914-1918 com a Alemanha. Goebbels referia-se desdenhosamente à "maneira maluca como os ingleses reuniam em livro que qualquer um podia ler os seus segredos e teorias sobre como influenciar o inimigo".

O livro a que ele se referia versava sobre a teoria e a prática da propaganda britânica sob a direção de Lorde Northcliffe, de agosto de 1918 até o Armistício. O trabalho foi escrito por Sir Campbell Stuart, membro de uma das comissões de Departamento de Northcliffe, e publicado em 1920 com o curioso título de Segredos da Casa Crewe - A Casa Crewe era a sede do Departamento, na Rua Curzon, Mayfair (residência londrina do Marquês de Crewe).

Naturalmente não havia nada de maluco na publicação do livro, que não revelava mais do que poderia descobrir sozinho qualquer estudante de propaganda, demonstrando Goebbels muita ingenuidade, levando-o tão a sério. Era um livro popular, que procurava satisfazer a curiosidade do público em torno do serviço de "Inteligência". O Segredos da Casa Crewe não era um documento particularmente emocionante, mas continha uma exposição ponderada do propósito da propaganda e uma análise sagaz do fracasso dos alemães em compreendê-la durante a guerra do Kaiser.

A propaganda consiste, segundo Stuart, na apresentação de um caso de maneira tal que possa influenciar pessoas. No tocante ao seu uso contra qualquer inimigo, o assunto tratado não deve ser claramente propagandístico. Excetuando-se circunstâncias especiais, a origem deve ser completamente oculta. Em geral também é conveniente ocultar os canais de comunicação".

A criação de uma "atmosfera" favorável é o primeiro objetivo da propaganda. Até que se produza esse efeito psicológico (resultante de acontecimentos militares, de atividade propagandista ou de descontentamento político interno), a mentalidade das tropas e da população civil inimigas - e ambas são igualmente importantes na guerra moderna - será naturalmente indiferente e insensível à influência.

Para se produzir essa "atmosfera" de receptividade e suscetibilidade, é indispensável a continuidade da política de propaganda. Isto pressupõe a definição de um plano de ação firme, baseado no conhecimento amplo da situação política, militar e econômica, e também da psicologia do inimigo.

"As operações reais de propaganda só podem começar depois que se estabeleceu um plano de ação, não antes. O mais importante axioma da propaganda é que só se pode fazer declarações verídicas."

Goebbels comentou depreciativamente sobre esse axioma, o que não é de surpreender, já que ele se dedicara à importância da mentira. "Dizer a verdade em questões de propaganda", escreveu ele, "é tão estúpido que só se pode concluir que o livro todo não passa de monstruosa "frente" erguida por Northcliffe para ocultar seus próprios erros ou então que os britânicos nos consideram muito ingênuos. Há certa verdade no que Stuart diz sobre o conhecimento da psicologia do inimigo. Mas estou mais interessado na psicologia da nossa própria raça".

E estava. E como não havia ainda inimigos militarmente ativos fora da Alemanha, ele se concentrou exclusivamente na maneira de incutir nos receptivos crânios dos seus concidadãos os princípios da filosofia nazista através de lemas, canções e discursos.

Lemas em abundância se despejariam da sua pena: Lebensraum! Sangue e Solo! Os Judeus são a Desgraça da Alemanha! Povo sem Espaço! Todos eles vieram a produzir impacto, mas o primeiro foi o mais famoso: Deutschland, erwahe! - Alemanha, desperta! Esta, como a maioria das frases que lançou, foi tirada de obras de outras pessoas - obras que, é de se reconhecer, não causaram muito impacto. O grande talento de Goebbels, como propagandista, era para adaptar as frases que encontrava no decorrer de sua extensa leitura aos interesses do credo nazista. O Deutschland, erwahe! tornou-se tão freqüente, nas bandeiras e tapumes, nos jornais e transmissões radiofônicas, que se transformou numa saudação tão casual como "bom dia", mas, ao contrário da saudação tradicional, ela expressava idéia de ação - "ela soa como um tambor na consciência das massas", como disse Goebbels.

Houve também o caso de Horst Wessel, que Goebbels transformou engenhosamente num festival nacional do martírio. Horst Wessel foi um dos que ingressaram entusiasticamente no partido depois do caso do Salão Pharus. Era filho de um pastor luterano, louro, espadaúdo, com a pinta agradável de um vida-limpa. Na verdade, porém, era brutal, amoral e estúpido. Wessel ingressara no partido vindo do Freikorps e Goebbels encarregou-o de um pelotão de Tropas de Assalto e mais tarde o treinou como orador para encorajar a filiação à organização da Juventude Hitlerista, vendo nele, acertadamente, o tipo de herói superficial que os jovens admiram. Contudo, Wessel meteu-se com uma prostituta chamada Erna Jaenicke e se desinteressou do partido, que para ele representava pouco mais que a oportunidade de satisfazer-lhe a queda para a brutalidade, surrando pessoas nas reuniões de Goebbels. Ele descobriu que poderia viver com mais conforto e ociosidade tornando-se gigolô de Erna e às suas custas viveu durante três anos. Todavia, ele tinha um rival no gigolô anterior de Erna, um tal de Ali Hoehler que, a 14 de janeiro de 1930, durante uma briga na casa de Erna disparou um tiro na boca de Wessel.

Goebbels imediatamente emprestou ao fato, apenas sórdido, a significação de um martírio político, apregoando que "o herói do Reich que despertava" fora fuzilado por acreditar no futuro da Alemanha sob Hitler, e que Hoehler era "um comunista imundo". (Na verdade, Hoehler também era nazista, mas o reconhecimento deste fato ou de quaisquer outros detalhes da associação entre Erna e os dois gigolôs dificilmente teria ajudado a história.) Wessel permaneceu no hospital durante três semanas. Goebbels o visitava diariamente e criava nas colunas de O Angriff uma imagem fortemente colorida do herói moribundo. Ele morreu a 23 de fevereiro de 1930 e teve um funeral público no qual Goebbels pôs em execução a brilhante idéia de fazer a chamada das Tropas de Assalto reunidas e ordenar-lhes que respondessem "Presente!" quando o nome de Wessel fosse chamado. Essa patuscada, de grande efeito emocional, foi apoiada pelo canto da canção de Horst Wessel - versos que Wessel havia mandado para O Angriff e que foram adaptados a uma canção popular. Foi a primeira apresentação da canção que se transformou no hino nazista.

Assim, com a percepção da psicologia da sua platéia, ele por assim dizer pôs a máquina da propaganda em regime de dedicação exclusiva da criação da mentira. Daí por diante, a única preocupação de Goebbels foi com a invenção do perjúrio emocional, espiritual e intelectual.

7. TERMINA O PRIMEIRO ATO

A Goebbels, mais que a qualquer outro - inclusive o próprio Hitler - deveu-se a retumbante vitória que os nazistas conquistaram nas eleições de setembro de 1930 para o Reichstag. "Eu aumentarei a representação do partido de 12 para 40 cadeiras". declarou ele, e começou uma campanha que, na verdade, era uma extensão das reuniões de Nuremberg por todo o país. Ele escolheu e treinou para falar em público mais de 200 membros, reunindo-os num grupo de instrução em Munique e falando-lhes, na sessão inaugural, sobre o papel do propagandista:

"O propagandista tem de construir sua própria verdade. O que for útil ao progresso do partido é verdade. Se coincidir com a verdade real, tanto melhor; se não coincidir, será preciso fazer adaptações. A grande e absoluta verdade é que o partido e o Führer estão certos. Eles sempre estão certos."

Com esta declaração, ele os fez freqüentar um curso intensivo de oratória que os mantinha ocupados durante doze horas por dia. Em seguida, foram despachados em todas as direções para o proselitismo em reuniões públicas, nas fábricas, nos estaleiros e escritórios e onde quer que pudessem, pelo método insidioso da chantagem - pois já então Heinrich Himmler voltara à casa nazista e seus dossiês de informações pessoais já se estavam multiplicando. O resultado da campanha de Goebbels foi um aumento na representação nazista não de 12 para 40 cadeiras, mas de 12 para 107. Os nazistas alçavam-se assim à condição de segundo poder, sendo superados somente pelo Partido Católico de Centro, de Heinrich Brüning.

"O Führer'', escreve Goebbels em seu estilo emocional corriqueiro, "enviou-me rosas vermelhas e abraçou-me. Ele é meu começo e meu fim. Uma das estrelas cintilantes da História. Ele me deixa sem energia com sua gratidão e lanço-me novamente no abismo da ação".

Nesse tempo Goebbels lançou-se não só "no abismo da ação" como também no casamento. Seus casos amorosos, desde as paixões juvenis inspiradas por Anka Stahlhern e Else Taub, haviam sido numerosos, mas superficiais (um deles fora a sedução da bonita empregada dos Steigers) e não eram mais satisfatórios do que as visitas que fazia freqüentemente aos cabarés-bordéis de Berlim. Mas, pouco depois da vitória nazista ele conheceu Magda Quandt.

Magda era a atraente filha de um professor de línguas orientais chamado Rietschel; fora educada num convento belga e falava fluentemente três línguas, além da sua. A mãe se divorciara do pai por considerar pequenas as recompensas financeiras que um professor universitário lhe podia oferecer. Posteriormente casou-se com um rico negociante judeu, Jakob Friedländer, que descobriu que sua paixão por dinheiro era mais do que ele podia suportar. Dando-lhe algumas propriedades e uma pensão vitalícia, escapou "antes que todo o dinheiro que ganho desapareça pelos bolsos sem fundo dessa mulher encantadora mas gananciosa". Frau Friedländer, a seguir, casou-se com outro homem de negócios, Christian Behrendt, de quem também acabou por se divorciar em troca de uma pensão principesca. Assim é que Magda tinha uma formação de instabilidade moral e segurança financeira.

Em 1919, ela conheceu - segundo alguns, num trem, quando de volta da escola de aperfeiçoamento - um rico industrial, chamado Gunther Quandt. Ele tinha 40, anos, era divorciado e possuía dois filhos, Herbert e Helmut. Magda estava com 19 anos, mas gostava demais das exterioridades do luxo para resistir a tudo o que Quandt lhe podia oferecer. Casaram em janeiro de 1921 e foram morar no elegante bairro de Babelsberg, em Berlim. Em novembro ela deu um filho a Gunther, a quem chamou de Harald, e poucos meses depois Gunther deu-lhe um flagrante de adultério com seu filho Herbert. Contudo, ela conseguiu convencê-lo de que Herbert lhe implorara para que o amasse "porque sabia que não demoraria muito neste mundo" - e realmente não demorou. porque morreu de peritonite pouco depois. Mas não foi tão fácil convencê-lo de que uma outra ligação amorosa que manteve com o estudante de música Ernst Wieser se verificara por compaixão. Em lugar de suicidar-se, como seria conveniente. Ernst a perseguiu implacavelmente e, depois de algumas cenas melodramáticas, o enganado Gunther declarou que se divorciaria dela, sem lhe dar um tostão de pensão.

Magda enfrentou esta situação ameaçadora muito bem. Ela sabia que Gunther era culpado de sonegações do imposto de renda e descobriu os papéis pertinentes em sua mesa. Com esses documentos funcionando como uma ameaça igualmente poderosa contra ele, Gunther sucumbiu à chantagem de Magda e concordou em livrar-se dela pelo pagamento de 50.000 marcos e de uma pensão mensal de 4.000 marcos, mais um apartamento, livre de despesas, na Reichskanzlerplatz. Esse arranjo satisfatório foi celebrado em 1929, e daí por diante Magda passou a viver a vida de rica divorciada. sem quaisquer outras responsabilidades além das que tinha para com seu filho Harald, que estava sob sua custódia. Seus amantes eram escolhidos com discrição e manobrados com habilidade. Ela continuou seu caso amoroso com Ernst Wieser e, concomitantemente, formou várias ligações socialmente vantajosas - incluindo uma com o sobrinho do Presidente Herbert Hoover, na época em missão diplomática em Berlim. Essas ligações sofisticadas lhe ocupavam as noites; os dias eram passados em atividades menos excitantes, inclusive o trabalho voluntário na sede do partido, em Berlim. Ali, um jovem amanuense tentou conquistá-la e ela decidiu afastar-se. Mas o afastamento não era coisa simples. Os regulamentos exigiam uma entrevista com o Gauleiter - provavelmente algum tipo de lavagem cerebral - antes que pudesse partir, levando consigo os segredos de que tomara conhecimento. Na verdade, seu trabalho era apenas o controle do material de escritório e foi fácil convencer Goebbels de que não estava interessada em política, e muito menos em espionar para a oposição ou intrometer-se. Foi igualmente fácil para ele convencê-la de que admirava sua beleza, inteligência e posição social. Ofereceu-lhe um cargo muito mais importante no partido, o de "encarregada dos arquivos particulares, onde você não será incomodada por atenções desagradáveis".

As suas atenções para com ela estavam longe de ser desagradáveis, mas por algum tempo ele se manteve meio reservado, para não lhe dar a impressão de ser tão vulgarmente impetuoso quanto o amanuense que lhe passara a mão nas pernas. Sua abordagem era intelectual: "Eu sabia muito bem que, vivendo a vida vazia de uma divorciada na sociedade, ela não tinha muito com que ocupar o espírito e que aceitaria de bom grado um estímulo mental". O estímulo que ele lhe deu foi, naturalmente, o nazismo.

Ele a apresentou a membros escolhidos do partido e encorajou-a a participar das discussões. Tanto quanto se sabe, não fez dela sua amante; ele teria sido incapaz de não mencioná-lo em seu diário. O método que preferiu adotar foi permanecer fugidio e continuar seu estímulo intelectual - "e ela se mostra uma aluna capaz", confiava ele ao seu diário. "Tanto que decidi apresentá-la a Hitler, pois na sua presença ela cintilará com o brilho do seu amor pela doutrina."

E estava certo. Em janeiro de 1931 ele arranjou um encontro em seu apartamento de Steglitz e Magda pôde citar copiosamente trechos do Mein Kampf - para satisfação do Führer, que respondeu com encanto untuoso e muita adulação e beija-mão. Como Goebbels, Hitler era altamente suscetível à adoração feminina e qualquer coisa além de uma saudação polida ele considerava como atenções desvairadas. Ele disse a Goebbels que a conquista de Magda provava que os membros da classe alta (dieoberen Klassen) estavam mudando gradativamente para a aceitação da filosofia nazista. (Naturalmente, Magda só era considerada de sociedade por causa da condição econômica; sua formação era essencialmente de classe média.) Quando Goebbels lhe disse que estava pensando em casar com Magda, Hitler ofereceu-se imediatamente para ser o padrinho.

A família e os amigos de Magda fizeram muita oposição ao casamento. Seu pai tachou Goebbels de individuo sem linha; Quandt advertiu-a de que ele era um escroque político e sua mãe disse que ele não passava de uma caricatura de homem. Ignorando todos os comentários e as violentas ameaças do seu amante estudante, Ernst Wieser, Magda casou com Goebbels a 12 de dezembro de 1931. Ela desejava consorciar-se na Igreja e, para tanto, Goebbels escreveu ao Cardeal-Arcebispo solicitando uma dispensa especial, em vista da condição de divorciada de Magda. Mas, não concedida a licença, o casamento realizou-se apenas no civil, numa propriedade de Gunther Quandt, em Mecklenburg, e Hitler manteve a promessa de ser o padrinho. Mais tarde, Goebbels escreveu uma carta insultuosa ao Cardeal, dizendo que vivera toda a vida sem as bênçãos da Igreja e continuaria assim, deleitando-se em sua blasfêmia. O Cardeal nada lhe respondeu, mas a Sociedade Albertus Magnus passou a insistir para que Goebbels lhe reembolsasse o dinheiro que ele tomara emprestado para completar sua educação. O reembolso dessas quantias havia sido ignorado com o passar dos anos, com Goebbels opondo-se com unhas e dentes à devolução, demonstrando ressentimento contra as justas reivindicações da Sociedade. Além disso, a desesperada atividade necessária para levar o partido ao poder, através da infâmia, da ameaça e da intriga, não lhe deixava muito tempo para preocupar-se com intimações como as que vinha recebendo.

O ano de 1932 foi o mais crítico que os nazistas experimentaram. Apesar da representação enormemente aumentada no Reichstag, que haviam conseguido como resultado da campanha desenvolvida por Goebbels em 1930, o caminho para a conquista do seu objetivo não era nada fácil. A Constituição alemã previa a realização de cinco pleitos durante o ano, dois para a presidência da República e três para a representação estadual e para o Reichstag. Hindenburg, o Presidente, já com quase 85 anos de idade, embora fosse uma personalidade respeitada, por causa de Tannenburg e de suas realizações com Ludendorff em 1916, - estava mental e fisicamente fraco.

Na primeira eleição, em março, ele não conseguiu obter maioria decisiva contra Hitler, a quem Goebbels convencera a "testar o prestigio junto ao povo alemão candidatando-se à presidência". Mas quando a batalha se repetiu, a 10 de abril, verificou-se que a posição de Hitler diminuíra, pois dessa vez Hindenburg conseguiu fazer maioria absoluta, recebendo mais de 50% dos votos apurados. Dois meses depois ele demitiu o Chanceler Brüning e o substituiu por Franz von Papen, que dirigiu o que veio a ser conhecido como "o governo dos magnatas".

A administração von Papen recebeu todo o peso da ira de Goebbels em seus discursos políticos. Ele disse às 100.000 pessoas que se acotovelavam no Lustgarten: "Quero que o povo alemão julgue os últimos quatorze anos de vergonha, de decadência e humilhação política... Verificou-se alguma mudança nas últimas semanas? Nenhuma, além da troca de caras dos que governam. A situação econômica continua péssima. O novo governo não iniciou nenhum programa de obras públicas. A miséria está aumentando e os famintos não sabem mais de onde virá a próxima refeição...

Essas palavras praticamente não tinham qualquer originalidade ou tino. A surrada fraseologia bem poderia ter partido de qualquer político em busca de poder para o seu partido. Mas Goebbels sabia o que estava dizendo. Hitler não escrevera que "O poder receptivo das massas é muito limitado"? As sutilezas eram inúteis; quanto mais vulgar a mensagem, tanto mais provável que as massas a compreendessem. E realmente parecia que elas haviam compreendido, porque depois de uma campanha ciclônica - durante a qual os diários de Goebbels ficaram cheios de frases como "Trabalhamos de pé, andando, dirigindo e voando... Estou vencido pelo cansaço... cheguei às duas horas da manhã, discuti assuntos prementes do partido até às quatro, tomei o trem para Berlim às seis... - houve outra vitória esmagadora para os nazistas, nas eleições de 31 de julho. Passaram a contar com 230 cadeiras no Reichstag, colocando quase 100 à frente dos seus rivais mais próximos, os social-democratas. Como partido majoritário, o Nacional-Socialista tinha o privilégio de eleger um líder do Reichstag. Por indicação de Hitler, Goering elegeu-se líder do órgão a 30 de agosto, enquanto que ele se reservava o direito de sonhar mais alto, de ser Chanceler da República ou talvez Presidente. "Sem o poder supremo", escreveu Goebbels, "o Führer não pode controlar a situação. Aquele hipócrita e incompetente von Papen ofereceu-lhe a Vice-Chancelaria e, naturalmente, o Führer a recusou desdenhosamente. Como poderia um salvador da Alemanha ser segundo-violino de um primeiro desafinado?"

Von Papen era de fato um homem obtuso, mas muito astuto. Ele influenciara a queda de Brüning pela intriga e, pensando na vantagem pessoal, maquinou a admissão de nazistas no seu gabinete. Por breve instante Hitler teve esperanças de assumir o domínio, mas também foi desapontado. Ele foi chamado à presença de Hindenburg a 13 de agosto e, recebido com gélida calma, ouviu deste a recusa peremptória em entregar a Chancelaria ao dirigente de um partido de que só se ouviam intrigas e violência. O Presidente não tinha muito respeito por Papen, mas deixou bem claro que respeitava Hitler menos ainda e que, na sua opinião, dar a Hitler o poder que exigia seria dar "um dia agourento ao povo alemão".

Hitler retirou-se furioso. Não lhe haviam oferecido sequer uma cadeira para sentar-se durante a entrevista e, pior ainda, sua arenga empolada desfez-se na fria dignidade do Presidente. Ele viajou imediatamente para o seu retiro, em Obersalzburg, para meditar e tramar, enquanto Goebbels partia para uma semana de repouso na costa do Báltico.

Nas conspirações subseqüentes, entre os líderes do Partido Centrista, os banqueiros e industriais, o Ministro da Defesa, General von Schleicher, Papen e o próprio Hitler, Goebbels não desempenhou nenhum papel importante. Por natureza, ele não era um conspirador, no sentido maquiavélico do termo. Sua continuou sendo a tremenda tarefa de convencer a nação alemã. Numa época em que havia milhões de desempregados e em que a fome mais e mais alargava a sua terrível sombra, os nazistas acenavam com o poder mágico de mudar tudo. Os distúrbios provocados pelas Tropas de Assalto e os assassinatos tramados e consumados pelas SS haviam angariado muita publicidade para o partido, mas havia sinais de que os discursos intermináveis e a propaganda viciosa contra toda oposição estavam começando a ser prejudiciais. Houve outra eleição, em novembro, de que resultou retumbante derrota para o gabinete Papen, por causa da sua impopularidade pessoal. Dessa vez, como Goebbels temia, os nazistas recolheram menos 2 milhões de votos, o que representou a perda de 34 cadeiras no Reichstag. Pior ainda, pôs em evidência que os comunistas estavam ganhando terreno, pois haviam recebido cerca de 6 milhões de votos.

Goebbels concentrou imediatamente as suas energias no combate à ameaça comunista. Os industriais que apoiavam o partido - que incluíam I. G. Farben e Thyssen, enquanto Krupp se mostrava já meio inebriado pela suástica e não demoraria a alinhar-se - eram os mais vulneráveis à infiltração bolchevista e Goebbels cuidou para que não se passasse um dia sem que fossem instados a decidir depressa entre o fim da empresa capitalista sob os comunistas e a promessa de recuperação industrial sob Hitler. A escolha não era nada animadora.

Gustav Krupp, o chefe da grande firma de armamentos, detestava Hitler e era um dos magnatas que apoiavam Papen e Schleicher, começou a dar sinais de hesitação ante a insistente propaganda de Goebbels e as manobras de Hitler, vindo a convencer Hindenburg de que Papen teria de renunciar; mas nem ele nem seus colegas, os demais capitães da indústria, conseguiram convencer Hindenburg de que Hitler deveria ser nomeado Chanceler. Em vez disso, o Presidente chamou Schleicher e a 2 de dezembro nomeou-o Chanceler, para que "aquele cabo austríaco arrivista" ficasse de fora.

"À medida que o ano de 1932, pleno de lutas, se aproximava do fim", diz William Shirer, "Berlim andava cheia de conspirações. Além das de Papen e Schleicher, no palácio presidencial também conspiravam o filho de Hindenburg, Oskar, e seu Secretário de Estado, Meissner. No Hotel Kaiserhof, Hitler e sua gente maquinavam a tomada do poder, mas também uns contra os outros. As teias da intriga em breve ficaram tão emaranhadas, que por volta do Ano Novo de 1933 os conspiradores já não sabiam ao certo quem traía quem".

No torvelinho dessas conspirações, o Presidente decidiu, a 28 de janeiro de 1933, demitir Schleicher, que mais tarde disse amargamente: "Estive no poder 57 dias e fui traído 57 vezes em cada um daqueles dias".

Dois dias depois, enroladamente enredado na trama da intriga, o Presidente nomeou Chanceler do Reich Alemão o homem que desprezara até então. Finalmente Hitler alcançou o poder.

Apenas três semanas depois, Goering, como líder da câmara, convidou os principais industriais, que há anos vinham despejando dinheiro no Partido, mas que foram retirando gradativamente o apoio quando compreenderam que Hitler representava a ameaça de ditadura de extrema direita, para uma conferência na qual Hitler exporia a linha de sua política. William Manchester registra a cena em The Arms of Krupp:

"Os convidados sentaram-se em cadeiras de braço cuidadosamente arrumadas. Krupp, devido à riqueza que possuía e por ser presidente da Reichsverband [Confederação Nacional], estava mais próximo da tribuna; atrás dele, quatro diretores da I. G. Farben e Albert Vögler, diretor da poderosa Vereinigte Deutsche Stahlwerke [Associação de Siderúrgicas Alemães]. Goering, abrindo a reunião, apresentou seu líder aos que, como Krupp, o estavam vendo pessoalmente pela primeira vez. Então o Chanceler levantou-se: "Estamos prestes a realizar a última eleição", começou, e fez uma pausa para que todos compreendessem plenamente as inferências disso. Naturalmente, a transição para o Nacional-Socialismo seria facilitada se o partido conquistasse maioria esmagadora. Portanto, ele pedia o apoio daqueles homens. Apoiando a ditadura, eles estariam apoiando a si mesmos. "A empresa privada não pode sobreviver numa democracia." Para esclarecer as dúvidas que tal afirmação pudesse suscitar, ele acrescentou que entre as "moléstias que esse regime político faz que surjam inclui-se o sindicalismo". À mercê de tal instituição, o Reich "inevitavelmente cairá". A grande preocupação da liderança consistia em encontrar ideais que unissem o povo alemão e ele encontrara esses ideais no nacionalismo e na força da "autoridade e da personalidade". Garantindo-lhes que varreria do país a ameaça comunista, afirmou que devolveria à Wehrmacht a sua antiga glória."

Evidentemente, o prestígio recém-adquirido por Hitler como Chanceler e a sua extraordinária personalidade fizeram pender a balança. Krupp foi o primeiro a oferecer um milhão de marcos para os fundos do partido; outros dois milhões foram prometidos pelos industriais ali presentes. Goebbels exultava. Havia apenas três meses que ele observara que o partido estava falido: "Não há dinheiro sequer para pagar os salários dos funcionários e a conta dos impressores. A situação financeira da Gau de Berlim é desesperada - nada mais que dívidas e obrigações". Mas, com Hitler instalado na cúpula da República, "em grande parte como resultado da determinação com que me lancei à tarefa de gravar profundamente nos corações certos a mensagem do partido", os problemas financeiros começavam a desaparecer.

E havia razões para ele se regozijar: sua máquina de propaganda funcionava a pleno vapor. Mas ele teve dificuldades domésticas. Em setembro, Magda dera à luz sua primeira filha, a quem chamaram Helga.

Deu-se a febre puerperal e durante mais de três meses - Magda esteve perigosamente mal. Por duas vezes viu-se à beira da morte, enquanto Goebbels se encontrava a centenas de quilômetros de distância, fazendo campanha. (O próprio Hitler esteve à sua cabeceira nas duas ocasiões, mas recusou-se a permitir que qualquer notícia de seu estado de saúde fosse comunicada ao marido, para não desviá-lo das preocupações com o partido.) Somente na segunda semana de janeiro de 1933 é que ela ficou fora de perigo, coincidindo sua volta a casa com a nomeação de Hitler como Chanceler. "O alegre retorno de Magda a casa", escreve Goebbels, "foi celebrada pela marcha triunfal das massas - centenas de milhares de pessoas - desfilando pela Chancelaria e saudando o Führer com a canção de Horst Wessel. Hora após hora não ouvimos outra coisa que não as palavras inspiradoras:

Ergam os estandartes! Cerrem fileiras.
As SA marcham com passo firme...

Meu coração está alegre novamente, depois dos meses de ansiedade e dúvida. Desce o pano sobre uma cena de glória. Ele se erguerá sobre o novo Reich! Heil Hitler!"

8. TERMINA O SEGUNDO ATO

Apesar do otimismo de Goebbels, era evidente que a posição de Hitler permanecia ainda insegura. O ano de 1932 deixara claro que as cabeças dos Chanceleres podiam rolar tão facilmente quanto quaisquer outras. O partido precisava de pelo menos uma maioria de dois terços no Reichstag, para legalizar a ditadura do Führer e impedir que ele caísse tão impotente quanto Brüning, Papen e Schleicher; e os comunistas ainda estavam muito bem representados para que os nazistas pudessem conquistar a ambicionada maioria de dois terços. Era necessário que ocorresse algum acontecimento dramático. Como Hitler diria tão agourentamente aos industriais a 20 de fevereiro, a próxima eleição seria a última; não haveria outra oportunidade para ele conquistar o poder absoluto, "para o beneficio da indústria alemã". A eleição seria realizada a 5 de março. "Antes disso", observou Goebbels, "os comunistas têm de ser derrubados".

Produzindo talvez o golpe de propaganda mais brilhante de sua carreira, Goebbels levou ao extremo da exageração a ocorrência de um incidente fortuito com a finalidade de desacreditar os comunistas perante o eleitorado germânico.

Na noite de 27 de fevereiro, o vazio e mal guardado edifício do Reichstag - o Parlamento Alemão - foi invadido por um jovem holandês. Seu nome era Marinus van der Lubbe e sua ambição era livrar a Alemanha da ameaça da ditadura de direita. Embora não fosse comunista, pois era anarquista demais para aceitar a subordinação a um credo tão disciplinado e monolítico, entre esquerda e direita, preferia a esquerda. Ele já fizera uma tentativa de incendiar o palácio real em Berlim, e só fracassou porque o método primitivo que usou permitiu que o prédio resistisse ao assédio das chamas. O Reichstag se incendiaria com muito mais facilidade. Ele se abastecera de gasolina e acendedores domésticos de parafina sólida, fazendo um rastro com as duas substâncias por uma grande área do interior do prédio. Quando ateou fogo ao que preparara, os móveis, o madeiramento e as cortinas se inflamaram instantaneamente, obrigando-o a fugir às pressas. O incêndio que provocara se alastrou com tanta rapidez, que ele, confundindo-se no caminho da fuga, acabou encontrando dois guardas do prédio. Não resistiu à prisão, sendo imediatamente entregue à polícia alemã. A notícia do atentado e da prisão do incendiário chegou logo aos ouvidos da liderança nazista. Goebbels talvez tenha sido o primeiro a perceber que ali estava a ocasião ansiosamente procurada para assestar a maquinaria repressiva do estado contra a esquerda antinazista. E viu também que, de sua parte, poderia colher o material com o que sensibilizaria a opinião moderada, fazendo-a passar decisivamente para o lado de Hitler e do partido. A história dos acontecimentos subseqüentes está narrada em seu diário.

Na noite de 27 de fevereiro, uma segunda-feira, Goebbels convidou Hitler para jantar, com ele e Magda, às 21:00 h. Depois do jantar, a eles se juntou Heinrich Hoffman, o fotógrafo oficial do Führer. A anotação no diário de Goebbels - palavras cuidadosamente escolhidas para a posteridade por alguém que insiste em que "a câmara não pode mentir" - diz: "Ouvimos um pouco de música e conversamos. De repente o telefone tocou. Era Putzi Hanfstaengl [Hanfstaengl era amigo íntimo de Hitler; sua família financiara as atividades do partido nos seus primórdios]: "O Reichstag está em chamas!"

Pensei que se tratasse de uma brincadeira maluca de Putzi e recusei-me a comunicar o fato ao Führer. Mas outros chamados confirmaram que era verdade. Incêndio premeditado! Imediatamente falei ao Führer e saímos apressadamente de carro pela Charlottenaurger Strasse. Todo o prédio ardia. Passando por cima das mangueiras, chegamos ao saguão pela porta número dois. Goering encontrou-nos no caminho e Papen também não demorou a chegar. Naturalmente isto é obra de incendiários - um louco seminu foi preso no prédio. Não há dúvida de que os comunistas fizeram uma última tentativa de, pelo incêndio e pelo terror, conquistar o poder durante o pânico geral.

"Agora temos de agir.

"Goering suprime imediatamente toda a imprensa comunista e social-democrata. Oficiais do partido comunista são presos. As SA são avisadas para ficar de prontidão, para qualquer emergência.

"Os comunistas estão muitíssimo enganados. Eles tentaram fazer-nos cair, mas, em vez disso, desfechamos-lhes golpe mortal."

No dia seguinte, Hitler não teve dificuldades em convencer Hindenburg a assinar um decreto de emergência, "como medida defensiva contra os atos de violência dos comunistas que ameaçavam o Estado". Na verdade, esse decreto marcou o começo do estado policial nazista legalizado. Ele autorizava restrições à liberdade individual, ao direito de livre expressão e de opinião, incluindo a liberdade de imprensa e o direito de reunião e associação. Também autorizou a violação do sigilo das comunicações postais, telegráficas e telefônicas e concluía agourentamente: "Os mandados de busca nas casas e ordens para o confisco de propriedades também são permissíveis além dos limites legais prescritos em outras circunstâncias". Visivelmente como produto de uma reflexão tardia, um adendo autorizava a aplicação da pena de morte, através de julgamento sumário, "a qualquer pessoa armada que esteja perturbando a paz".

Este decreto permitiu que Hitler prendesse, aprisionasse ou executasse virtualmente todos os que se lhe opunham - e, como Goebbels registra afavelmente em seu diário, ele fez "Prisões e mais prisões. Agora a peste vermelha está sendo completamente eliminada. Não há sinal de resistência em parte alguma. Os adversários parecem tão avassalados pela ação enérgica que desenvolvemos que não se atrevem mais a resistir". Como a "ação enérgica" representava incursões contra milhares de residências, escritórios e fábricas, feitas pelos homens das Tropas de Assalto, que prendiam e torturavam brutalmente qualquer um contra quem fosse possível imputar a acusação de "se opor ao Führer e à Glória do Reich Alemão", não é de espantar que Goebbels pudesse usar a frase "não há sinal de resistência em parte alguma".

Da mesma forma, como todos os jornais e reuniões públicas dos comunistas e de outros adversários foram proibidos, também não era de esperar que houvesse muita resistência nos meios de comunicação. Como só os nazistas e pró-nazistas tinham permissão de fazer campanha, é um tanto irônico falar-se em falta de resistência.

Foi neste ponto, cinco dias antes das eleições de 5 de março, que Goebbels registrou:

"Estou prestes a assumir o controle do vasto setor radiofônico. Terei de livrar-me de muitos membros ineficientes da equipe. É preciso realizar uma reformulação especialmente no pessoal da administração". O mais interessante a respeito disso é a nota do dia preciso - 1o de março de 1933 - em que Goebbels assumiu o comando do veículo de comunicação que seria a sua mais efetiva arma de propaganda, pois a partir desse dia o rádio passou a levar a personalidade hipnótica do Führer aos 40 milhões de súditos impressionáveis do Reich Alemão. E o gênio de Goebbels, na manipulação das suas possibilidades, logo se evidenciou. foram definitivamente vencidos."

"O Führer fala com o máximo de fervor e devoção", Goebbels garantiu ao povo. "Quando, no fim, mencionou que o Presidente do Reich e Hitler haviam apertado as mãos - o primeiro tendo libertado a Prússia do inimigo como Feldmarechal e o segundo tendo cumprido seu dever no Ocidente como simples soldado - o hino de ação de graças e, ao fundo, o soar vigoroso dos sinos da Catedral de Königsberg formaram um corpo esplêndido para o coroamento de seu discurso. Toda a Alemanha, nas praças, nas ruas, nas cervejarias ou nos lares, ouvia o hino que palpitava pelas ondas etéreas do rádio. Ela se conscientiza de que uma nova era raiou. Neste momento, milhares e milhares de pessoas estarão decidindo-se por Hitler, optando assim pelo ressurgimento da nação."

Com entusiasmo incomum, Goebbels apreendeu a grande importância do rádio, assim como boa parte da técnica que lhe asseguraria dramaticidade na sua utilização. Numa visita de duas horas a um estúdio de transmissão, procurou familiarizar-se com os potenciômetros e outros dispositivos técnicos que lhe permitiriam os truques de sons; valendo-se do uso hábil de gravações interpoladas, ele poderia obter efeitos que transformariam mentiras em verdades, mistificando também na apresentação de Hitler ao microfone alterando-lhe o timbre de voz o seu modo de falar, fazendo dele uma personalidade radiofônica elaborada.

Na verdade, o resultado das eleições de 5 de março não foi muito encorajador. Os nazistas e seus parasitas só conseguiram 51% dos votos depositados. Mas Goebbels não perdeu tempo em apresentar a sua versão da verdade:

Ouvir a Walkürie, à noite, na Ópera Estadual. A sublime música de Wagner mistura-se com o som da marcha dos Stahlhelm que festejaram seu grande dia em Berlim e agora passam pela Ópera.

"Os primeiros resultados já chegaram. Sucesso sobre sucesso, fantástico e incrivel.

"Quando voltarmos à Chancelaria, depois do espetáculo, a vitória será nossa. Ela é muito maior do que nos atrevíamos a esperar. Mas o que é que os números significarão, doravante? Somos os senhores do Reich e da Prússia; todos os outros partidos foram definitivamente vencidos."

A vitória fora muito maior do que os nazistas se atreviam a esperar porque o decreto de emergência posto em vigor determinou a prisão de todos os deputados comunistas eleitos alegando-se para tanto que os instigadores do incêndio do Reichstag eram claramente inimigos do Estado, incapazes, portanto, de dirigir os que por desorientação foram levados a votar neles - quanto mais "a vasta maioria da nação alemã que tinha fé no único credo verdadeiro, o nacional-socialismo". Para preservar a aparência de democracia, os pequenos partidos, como o Partido Nacional do Povo (dirigido por von Papen e pelo editor Alfred Hugenberg), e os líderes dos social-democratas que haviam escapado de serem presos como simpatizantes comunistas, permaneceram temporariamente sem serem perturbados; mas somente por alguns dias. A 23 de março, Hitler não encontrou dificuldade em fazer passar pelo Reichstag uma "lei para eliminar o sofrimento do povo e do Reich". Somente os social-democratas votaram contra ela, mas eram apenas 84 deputados. Os nazistas, apoiados por seus ex-adversários menores, cujas mãos haviam sido "molhadas" pelo dinheiro de Krupp e transformadas num apoio dócil ao "melhor caminho para a indústria alemã e, portanto, para a economia alemã" aprovaram a lei com uma maioria de 357 votos.

Seguiu-se imediatamente um tumultuoso aplauso. No Teatro da Ópera Kroll, onde o Reichstag se reunira, ecoaram os vivas ao triunfo nazista. Com esta simples lei, de cinco parágrafos, "para eliminar o sofrimento do povo e do Reich" (ela foi sucintamente chamada "Lei da Capacitação Plena"), os nazistas arrancaram o poder do parlamento alemão e instituíram um regime totalitário. Com eles ficou o domínio completo da vida nacional germânica, inclusive o controle do orçamento do Reich, a aprovação dos tratados com potências estrangeiras e a faculdade de promover emendas à Constituição sem recorrer à Câmara. Toda a estrutura do estado - jurídica, econômica e interna - estava nas mãos do gabinete de Hitler, na verdade, nas mãos do próprio Hitler. Como diz Shirer:

"Assim, a democracia parlamentar foi finalmente sepultada na Alemanha. Excetuando-se as prisões dos representantes comunistas e de alguns deputados social-democratas, tudo foi feito muito legalmente, embora acompanhado de terror. O Parlamento, subordinando sua autoridade constitucional a Hitler, suicidou-se, embora seu corpo permanecesse embalsamado até o fim do Terceiro Reich, servindo freqüentemente de caixa de ressonância de alguns dos tonitruantes pronunciamentos de Hitler, com seus membros sendo escolhidos a dedo pelo partido nazista, pois daí por diante não haveria mais eleições verdadeiras. Foi somente esta 'Lei da Capacitação Plena' que formou a base legal da ditadura de Hitler. A partir de 23 de março de 1933, Hitler passou a ditador do Reich, livre de quaisquer restrições parlamentares e, para todos os fins, também livre do controle do velho e cansado presidente. É certo que havia muito o que fazer para submeter a nação e suas instituições ao controle nazista, embora... também isto fosse feito com inaudita rapidez e muita vulgaridade, com trapaças e brutalidade."

O plano de Goebbels para derrubar os comunistas - e, por extensão, submeter a própria nação alemã aos Aliados a 7 de maio de 1945 - funcionara brilhantemente. A "verdade" elaborada pelo propagandista levara a palma.

Exatamente dez dias antes ele recebera a sua recompensa. Hitler criara o Ministério do Esclarecimento e Propaganda e, a 13 de março, Hindenburg assinou o edito nomeando o Dr. Joseph Goebbels seu titular. Naquela noite, ao chegar a casa, ele foi recebido por Magda como Herr Reichsminister. "Bebemos champanha para brindar ao futuro. Sinto-me um pouco nervoso quando penso que, com pouco mais de 35 anos, tenho sobre os ombros tão grande responsabilidade... Mas, que a grande obra prossiga! E que eu sempre permaneça grato ao Führer pela enorme confiança que tem em mim."


9. ESCALADA



Nos seis anos decorridos entre a tomada do poder pelos nazistas e o começo da guerra, Goebbels desenvolveu as técnicas com as quais manteve seu Führer nos píncaros a que os truques de propaganda o haviam erguido.

"A propaganda foi o gênio do nacional-socialismo", diz Joachim Fest em The Face of the Third Reich. "Ela não foi apenas a determinante das mais importantes vitórias de Hitler. Mais que isso, ela foi a alavanca que promoveu a ascensão do partido, sendo mesmo parte de sua essência, e não simples instrumento de poder. É muito mais difícil compreender o nacional-socialismo através de sua nebulosa e contraditória filosofia do que pela índole da sua propaganda. Indo ao extremo, pode-se dizer que o nacional-socialismo era propaganda disfarçada em ideologia."

Do lado positivo, a canonização do Führer dependia inteiramente da máquina de estimulação e do mesmerismo. As partes mais importantes dessa máquina eram as divisas, os rótulos, os letreiros (Deutschland erwahe! Sieg Heil! etc., interminavelmente repetidos), fanfarras triunfais, bandeiras, holofotes, formações em massa de gente e evidência material de força, uniformidade de propósito expressada pelas colunas em marcha e pelo cintilar dos instrumentos de agressão ou de trabalho de campo e a criação de todas as formas de êxtase que levavam ao estado irracional, no qual as palavras do Führer eram absorvidas como verdades fundamentais.

Por outro lado, considere-se também a ação contrária, potencial ou real, dos que se apegavam secreta ou abertamente ao liberalismo de pensamento ou de expressão. Era muito simples montar um Thingspiel (mistura de toque de recolher, de circo e de dança orgiástica) num anfiteatro nacional e formar uma platéia de 45.000 Jovens Hitleristas que receberam ingressos nos seus envelopes de pagamento (de onde se deduziu o dinheiro); era mais difícil impedir a circulação de propaganda antinazista tenuemente disfarçada de diversão, literatura ou arte. Por exemplo, um artista de cabaré chamado Werner Finck apresentava uma cena, passada numa alfaiataria, em que ele aparecia tirando as medidas para fazer um terno.

Parte do diálogo envolvia a pseudomedição - dezenove, trinta e três. À pergunta "como prefere os bolsos", Fink respondeu: "Bem abertos - como é moda agora". Por isto ele foi mandado para um campo de concentração. As provas contra esses infratores eram recolhidas principalmente por bisbilhoteiros - que Himmler tinha em grande número - e por batidas policiais.

A literatura, no sentido mais amplo, era muito mais fácil de controlar, porque suas infrações eram evidentes por si mesmas. Quem não ouviu falar das cerimônias de queima de livros de maio de 1933, quando milhões de obras "imorais" foram destruídas nos pátios das universidades, acompanhadas de pios discursos dos acadêmicos que não haviam sido demitidos ou enviados para os campos de concentração por causa das suas deficiências raciais ou idéias liberais? O mesmo acontecia com os jornais: a demissão de um pretenso redator liberal era tratada como a triunfal descoberta e exposição ao sarcasmo público de um traidor do Reich.

"Proibições atrás de proibições", escreveu Goebbels "decidem o rumo da revolução... os jornais judeus, que nos têm causado tantas dificuldades, desaparecem repentinamente das ruas de Berlim, o que é um alivio e uma bênção. Goering está limpando as cavalariças de Áugias".

Enquanto Goering realizava essa tarefa, Goebbels introduzia a idéia do nazismo nos lares e nas mentes de milhões que, em outras circunstâncias, teriam permanecido indiferentes ou críticos - e em 1933 estes ainda eram muito numerosos. ("Se Hitler fosse inteiramente popular, Goebbels estaria desempregado; e se Goebbels fosse inteiramente bem sucedido, Himmler estaria desempregado", diria acremente o correspondente do New York Times em Berlim.) Os vacilantes foram arrebanhados e convertidos pela mais recente e poderosa máquina de propaganda de Goebbels: o rádio.


Sua primeira providência, após mandar o Departamento dos Correios aumentar o número e a potência dos transmissores que controlava através da Companhia de Rádio Nacional Alemã, foi assegurar a disponibilidade de receptores para as transmissões. Para tanto, expediu uma ordem direta do Ministério aos fabricantes de rádio para que projetassem e produzissem um Volkspfänger (receptor popular) a ser colocado à venda por preço tão baixo que ninguém deixasse de comprar um - sobretudo com a facilidade das vendas a crédito. Desse modo, ele aumentou o número de ouvintes de casa para 24 milhões, à média de 4 pessoas por casa, em fins de 1933. Mas havia cerca de 23 milhões de lares e nem mesmo Goebbels podia colocar um receptor em cada um deles com rapidez suficiente para captar as palavras imortais que o Führer e os nazistas que o apoiavam despejaram pelos microfones durante o seu primeiro ano no poder. Foi, então, ordenado que se fizessem audições comunais.

"A audição comunal de transmissões consideradas importantes tornou-se uma característica da vida na Alemanha nazista. Muitas delas eram feitas em horas de trabalho, o que levava as fábricas e escritórios a suspender a atividade, para que fosse atingida toda a força de trabalho do país. Os restaurantes e cafés tinham de possuir aparelhos de rádio, para essas ocasiões públicas; além disso, instalavam-se postes com alto-falantes nas ruas... [Assim] o Terceiro Reich alcançou uma cobertura radiofônica mais densa do que qualquer outro país do mundo. Os elos humanos, nessa rígida rede, eram os "guardiões radiofônicos" do partido nazista, que tinham o dever de levar os que viviam em seu quarteirão a ouvir os programas prescritos pelo partido, de dedurar os que ouviam transmissões estrangeiras e de enviar relatórios sobre, por exemplo, reações produzidas na audiência, preferências e pedidos dos ouvintes para uma agência coordenadora central".
O trecho acima, extraído do livro Social History of the Third Reich, de Richard Grunberger, leva à conclusão de que se deve ter perdido uma quantidade enorme de horas de trabalho, pois os discursos de Adolf Hitler e seus seguidores quase sempre duravam duas horas, às vezes três horas. Evidentemente, Goebbels achava que a inseminação da doutrina nazista era mais importante que a produção dos trabalhadores. Nesse estágio de instável domínio do partido sobre a nação, era essencial que os vacilantes e os críticos fossem levados para o curral certo. A máquina de convencimento dos apartidários foi então acionada.

A eficiência do seu funcionamento foi testada em fins de junho de 1934, quando se deu o massacre dos adversários e dos amigos duvidosos do nazismo, perpetrado na "noite das longas facas" - o fim de semana de 29 e 30. Chegara a hora de Gregor Strasser, assim como a do chefe das Tropas de Assalto, Ernst Röhm, cuja ambição era tornar-se Ministro da Defesa e, subseqüentemente, substituir o poder do exército regular pelo das suas tropas SA. Mas o exército regular é que tinha, pela Constituição, o poder, e com Hindenburg caminhando rapidamente para a morte, Hitler planejava acumular os cargos de Presidente e de Chanceler, de modo que todos os membros das forças armadas fossem obrigados a prestar juramento de fidelidade a ele pessoalmente. As insubordinadas Tropas de Assalto de Röhm haviam cumprido sua tarefa e, de qualquer modo, Hitler concordara em reduzir seus efetivos em dois terços, quando a Grã-Bretanha, na pessoa de Anthony Eden, o desafiou - uma medida diplomática que fez baixar a temperatura da antipatia da Europa para com Hitler.

Assim, Röhm teve de ser eliminado. Arrancado da cama, onde estava com "seu" amante, foi fuzilado por seus próprios seguidores. O mesmo aconteceu com Gregor Strasser, a quem Hitler jamais perdoara por lhe haver tentado arrancar o poder quando se encontrava na prisão. O mesmo aconteceu com centenas de membros do partido - nunca se precisou o número deles - cujos atos subversivos eram evidentes ou sobre quem pairavam acusações de Himmler de haverem praticado alguma contravenção, real ou inventada, como, por exemplo, von Schleicher - que teve o azar de ser o homem que bloqueara o caminho de Hitler para a Chancelaria - e muitos dos que haviam ajudado a tramar o incêndio do Reichstag e que por isso se tornaram perigosos.

Todos esses, e incontáveis outros, foram procurados e assassinados pelas Tropas de Assalto do próprio Röhm durante aquele fim de semana sangrento. Goebbels teve pouco que ver com o planejamento da "noite das longas facas": ele estava preocupado era com a sua própria pessoa no resultado do expurgo e, metaforicamente, agarrou-se à mão de Hitler para se garantir de que sairia ileso da fúria do furacão que o Führer fez soprar no momento em que decidiu varrer do caminho quem quer que representasse obstáculo, real ou potencial, às suas pretensões. Notou-se que Goebbels estava constantemente à sombra de Hitler - uma caricatura diabólica e sorridente, aviltando-se e tentando desesperadamente ocultar seu pé aleijado, como se isso fosse capaz de provocar o desagrado do seu senhor e resultar no seu afastamento do caminho do poder".

O trabalho que lhe coube, ordenado por Hitler e executado com meticuloso cuidado; foi inventar e tornar públicas histórias convincentes dos "suicídios" dos que desapareceram misteriosamente durante o fim de semana de 29-30 de junho e cujos corpos não foram recuperados aos rios, pântanos e bosques distantes durante muitos meses. Lágrimas de crocodilo verteram-se por Ernst Röhm: "Um grande homem da história do Partido Nacional-Socialista. O seu suicídio foi o resultado inevitável de chantagem e homossexualismo". E todos os documentos que poderiam de alguma forma vincular o Führer ao expurgo foram pessoalmente destruídos por Goebbels, enquanto que os repórteres dos jornais foram ameaçados de desaparecimento igualmente misterioso, nos campos de concentração, se fizessem qualquer referência desautorizada ao fim de semana vermelho.

O privilégio de noticiá-lo era de Hitler que, a 2 de agosto, após a morte de Hindenburg, acumulou os cargos de Presidente e Chanceler, alçando-se desse modo ao poder absoluto. Não tendo, então, nada que lhe pudesse solapar a autoridade, ele apresentou a sua versão do expurgo, acrescentando a ameaça: "Todos devem saber que se, doravante, alguém erguer a mão contra o Estado, o destino será a morte certa".

Como de costume, Goebbels não se deu por achado diante da discrepância entre o que tinha propagandeado, que todas as vítimas conhecidas do expurgo haviam sido suicidas, e a frenética revelação de Hitler de que ele "expurgara o Reich dos seus inimigos", discrepância que fora anotada e estava sendo satirizada nos cabarés clandestinos.

"Eu é que faço a verdade", escreveu ele cinicamente. "Estive com Himmler hoje e disse-lhe que temos de arrancar esses pretensos satíricos dos seus cantos escuros e mostrar-lhes os erros do seu procedimento."

Aqueles que se negavam a engajar na linha de raciocínio estabelecida pelo Ministério do Esclarecimento e Propaganda, denominados por Goebbels "intelectuais", receberam o mesmo tratamento. Um deles, Oswald Spengler, publicara um livro, chamado A Hora da Decisão, no qual escrevera:

"Não censurarei nem elogiarei. Evitarei formar qualquer estimativa das coisas que estão surgindo agora. A justa avaliação de um fato só é possível depois que ele se fez passado, e os seus bons ou maus resultados são coisa concreta. Logo, só a História poderá julgar os grandes acontecimentos, talvez quando os seus contemporâneos já não forem vivos. Isto [a tomada pelos nazistas do poder] não foi nenhum triunfo, pois faltavam oponentes. A Alemanha está em perigo. Meu temor pela Alemanha não tem diminuído. Vejo mais longe que outros... "

As dúvidas que Spengler lançou sobre as virtudes do novo regime foram raivosamente respondidas por Goebbels em dois panfletos oficiais que esmagaram seus argumentos com golpes que, muito obviamente, eram o desespero de um intelectual - Goebbels era sem dúvida um intelectual - reconhecendo o poder do pensamento não reprimido. Spengler morreu dois anos depois, tendo recusado a transformar-se num seguidor de Hitler. Goebbels vingou-se de modo mais vigoroso de Elm Welk, redator do semanário Gruene Post, que o ofendera publicando um editorial em que se registravam as dificuldades que vinha encontrando para publicar um jornal que não passava de cópia de mil outros, todos feitos à base das notas fornecidas pelo Ministério da Propaganda. "Somos informados de que essas declarações oficiais têm de ser reescritas", consignou ele, "que não devemos ter medo de criticar; e também que, se tivermos dúvida, o próprio Ministro nos ajudará a solucionar nossos problemas. Mas quando fui procurá-lo pessoalmente, constatei ser muito difícil entrar em contato com tão grande homem, vivendo numa casa tão grande, com tantos aposentos e cercado de gente tão importante. Esperei em mil antecâmaras para ver se podia obter qualquer informação sobre como dirigir o Gruene Post de maneira a agradar o Ministro e, ao mesmo tempo, criticar sem receios. Mas vim embora sem ter obtido qualquer informação".

Goebbels imediatamente suspendeu o jornal e mandou prender Welk e enviá-lo a um campo de concentração.

Mas, fora da Alemanha, ele nada podia fazer contra a sátira ou a critica. Quando Hitler o enviou a Genebra, para participar da Conferência do Desarmamento de setembro de 1933, ele se fazia acompanhar, permanentemente, por um grupo de seis guarda-costas, seis robustos homens das SS especialmente escolhidos como exemplos do "físico ariano ideal". Eram altos, espadaúdos, louros - feitos pelo mesmo molde de Horst Wessel. Uma caricatura publicada num jornal suíço mostrou-os como bonecos parados, de braços cruzados, contra um fundo de bandeiras da suástica; em primeiro plano, agachava-se um ananicado e deformado Goebbels, com seus cabelos pretos brilhando sobre um sorriso cruel. "E quem é este aí?" indagava a legenda. "Ora, este é um belo, alto, louro, desempenado e fisicamente soberbo representante da grande raça nórdico-ariana de alemães puros."

Contudo, dentro do seu território, Goebbels jamais teve diminuído o domínio sobre as emoções do povo alemão. No ministério que dirigia, ele criou departamentos que não deixavam qualquer aspecto da vida doméstica do país insondado pelos dedos da propaganda. Havia oito desses departamentos, que se ocupavam com Lei, Finanças, Pessoal, Cultura e Publicidade; com Política, Cerimonial, Juventude, Saúde Pública, Problemas Raciais e Viagens; com Rádio; com Disseminação de Notícias no País e no Exterior; com o Cinema; com o Teatro, Música e Arte; e com a Proteção contra a Contrapropaganda no País e no Exterior.

O provimento dos cargos desses departamentos era feito com muito cuidado. Goebbels escolhia a dedo seus auxiliares e exigia deles eficiência igual a sua, e ele era fantasticamente eficiente, podendo, a um só tempo, dedicar-se com igual intensidade a uma variedade de assuntos. Era normal vê-lo rodeado em seu gabinete por três ou quatro secretárias, ditando simultaneamente artigos, discursos, cartas e memorandos.

Tendo interrompido seu ditado a uma delas no meio de uma frase, para ditar algo completamente diferente a uma outra secretária, ele voltava, às vezes até dez minutos depois, ao ponto que havia sido interrompido sem qualquer vacilação. No fim de duas ou três horas de atividade assim intensa, ele talvez fumasse um cigarro e bebesse um copo de vinho branco, para depois partir com outro séquito de secretárias, embarcando num carro ou num trem, onde continuaria trabalhando com a mesma diligência, chegando ao seu destino plenamente preparado para fazer um discurso de uma hora no qual, segundo o embaixador britânico na Alemanha, Sir Nevile Henderson (e incontáveis outras testemunhas), "bílis alguma e mentira alguma eram clamorosas demais para ele".

Sua incapacidade de fazer calar as chacotas a ele dirigidas pela imprensa estrangeira era um tormento constante; mas toda a sua relação com os jornalistas que representavam os jornais das democracias era exacerbada pela mesquinhez do seu ponto de vista. Apesar da sua indiscutível inteligência, ele não conseguia compreender a psicologia de outras nações.

"Por que eles insistem em ignorar a verdade como eu lhes conto?" escreveu queixosamente em seu diário. Naturalmente porque os correspondentes de Nova York, Londres, Paris e outros locais haviam visto com os próprios olhos os mil e um atos do estado nazista que Goebbels negava com calor - como, por exemplo, a perseguição aos judeus, que aumentava gradativamente e que os boletins oficiais para a imprensa chamavam eufemisticamente de "reorientação da população trabalhadora de acordo com as necessidades da indústria alemã". Sua sofisticação revelava essa incapacidade de compreensão: uma estranha crença de que a Europa e a América democráticas eram apenas uma extensão do Reich alemão e que as pessoas lá fora eram facilmente iludidas por falsas convicções, como os súditos de Adolf Hitler, já submetidos à lavagem cerebral. Quando se tornou evidente, pelas reportagens saídas na imprensa estrangeira, que essas pessoas assim procediam por viverem fora de uma nação contida pela policia secreta e por uma Lei da Capacitação Plena, que dava poder absoluto a um homem, ele se vingou expulsando muitos correspondentes estrangeiros por fazerem "reportagens incorretas" - aparentemente não vendo que, assim procedendo, estava mostrando fraqueza, e não força.
Como que para rebocar as fendas abertas no edifício do Terceiro Reich, ele mudou de tática e gastou uma fortuna - 260 milhões de marcos em um ano apenas, 1934 - em propaganda no estrangeiro, colocando adidos de imprensa em suas embaixadas e instruindo-os, em mensagens cifradas, sobre as diretrizes que deveriam adotar:

"Para o mundo exterior, nossa propaganda deve sublinhar de maneira impressionante que a Alemanha não deseja outra coisa senão uma solução pacífica de todos os problemas pendentes. De maneira hábil, todos os que se têm recusado a ceder às legítimas exigências da Alemanha têm de ser culpados pelo fracasso de uma composição pacífica. Isto tem de ser feito com discrição e de maneira que varie sempre."

Ineptamente, ele fez soar no exterior o tambor da propaganda. Não é de surpreender que viesse a fracassar completamente em seu relacionamento com a imprensa estrangeira o homem que admitia - de acordo com o que afirmou numa coletiva à imprensa, concedida a 7 de abril de 1933 - que "na Grã-Bretanha e na França, qualquer que seja o ponto de vista dos partidos políticos, a opinião pública é sempre dirigida de modo uniforme em todas as questões consideradas importantes para a nação".

Mas dentro dos seus próprios domínios, o som surdo da sua propaganda era tão implacável quanto o som de pés em marcha - sorri este transmitido pelo rádio em todas as ocasiões possíveis, freqüentemente várias vezes por dia. Num crescendo, os lemas, as ordens, a música marcial, os discursos, os hinos e o rufar de tambores aceleraram de maneira aterradora para o choque fortíssimo da guerra.

11. O ÚLTIMO ATO

Antes que pudesse dedicar-se á tarefa de subjugar outras nações e ampliar as fronteiras da Alemanha, para prover lebensraum para "a maior nação da terra" (foi uma frase que Goebbels criou para ele), Hitler teve de subjugar primeiramente a própria Alemanha. No Reichstag, isto não foi problema. Os social-democratas agarraram-se pusilanimemente aos nazistas, depois de fraca resistência nas eleições; os comunistas haviam sido suprimidos; os democratas e o Partido do Povo expiraram por vontade própria e o Partido do Centro e o Partido Nacional Alemão foram "voluntariamente" dissolvidos, quando Tropas de Assalto invadiram seus escritórios como meirinhos apreendendo por dívidas. A 14 de julho de 1933, toda oposição foi proibida por lei: "O Partido Nazista constitui o único partido político da Alemanha. Quem quer que se aventure a manter a estrutura de qualquer outro partido político ou a formar um novo partido político, será punido com trabalhos forçados até três anos, ou por prisão de seis meses a três anos, se o fato não for sujeito a maior penalidade, de acordo com outros regulamentos".

Já anteriormente, os governos estaduais alemães, que sempre mantiveram seus próprios poderes dentro da federação, haviam sido dissolvidos, e governadores nazistas haviam sido nomeados "para levar a cabo a política geral estipulada pelo Chanceler do Reich".

Também os sindicatos foram esmagados, pelo confisco dos seus fundos, pela ocupação de suas sedes e pelo encarceramento dos seus lideres, "por não cooperarem com o regime". Simultaneamente, a propaganda de Goebbels informou os trabalhadores que o Führer compreendia a pobreza em que viviam e não permitiria a exploração pelo "capitalismo anônimo" e que daí por diante os contratos de trabalho seriam regulamentados pelos "líderes naturais" da indústria. Como com isto ele queria dizer que no futuro os empregadores seriam os senhores absolutos da indústria e que as greves seriam proibidas por lei, é compreensível que os trabalhadores não se convencessem. Eles foram persuadidos a uma semicrença por uma enorme celebração, a 1o de maio, das glórias do trabalho. A comemoração foi preparada (por Goebbels) no Campo Tempelhof, em Berlim, num estilo semelhante ao que era usado nas Reuniões de Nuremberg. Hitler berrou para 100.000 delegados dos trabalhadores ali reunidos que ele e a nação sempre honrariam o trabalho e respeitariam o trabalhador, acrescentando que era completamente fora de propósito a afirmação de que o nazismo era contra os trabalhadores alemães. Aduziu ainda que a Festa da Primavera seria realizada em homenagem ao trabalho alemão pelos séculos a fora.

Toda essa fantasia, pronunciada à maneira mesmérica de Hitler e apoiada pelas bandas de música, desfiles comuns e outros processos de aquecimento, teve o efeito desejado - especialmente com o reforço, como aconteceu durante as semanas seguintes, das prisões em massa e dos confinamentos "em custódia protetora" de todo aquele que cometesse a temeridade de levantar um dedo ou dizer uma palavra de protesto. Acuando o Judiciário com a ameaça de meter em campo de concentração os juízes que viessem a condenar os bandidos que em nome da nova ordem atentavam contra as liberdades públicas, a "justiça" nazista prosperaria daí em diante, assinalando o fim do regime de direito.

Quanto à estrutura econômica, Hitler substituiu o Diretor do Reichsbank, Dr. Hans Luther, pelo Dr. Hjalmar Schacht, bajulador de Hitler desde os primeiros tempos do partido. Durante os cinco primeiros anos de gestão, Schacht esforçou-se por demonstrar que fora sensata a escolha do Führer, baseando a economia alemã num vasto programa de rearmamento. Não poderia ter sido mais eficiente na criação de trabalho para os desempregados alemães que, com a crise econômica mundial provocada pelo colapso de Wall Street, iniciada em 1929, somavam cerca de 6 milhões. Assim, os desígnios expansionistas de Hitler foram convenientemente transformados num programa racional de recuperação - programa que durante breves momentos se apoiou, nas palavras delicadas de Schacht, "nos processos inflacionários da impressora", mas que em breve passou a desenvolver-se por seu próprio impulso e pelos "fundos confiscados dos bolchevistas, judeus e outros inimigos do Grande Reich Alemão".

Naturalmente, o programa de rearmamento tinha de ser mantido em segredo. Aos jornalistas estrangeiros, Goebbels negava a existência de qualquer esforço armamentista que ultrapassasse os limites impostos pelo Tratado de Versalhes. O incrível é que esperava que acreditassem nele, assim como esperava que acreditassem quando explicou que os campos de concentração eram "parte do plano do Führer para a reabilitação da raça judia". Ele acreditava ingenuamente que, se podia criar em seu país a ilusão de que preto era branco, as nações responderiam com igual credulidade. A propósito, um correspondente da Associated Press em Berlim, Louis P. Lochner, diz:

"Notável exemplo da capacidade de Goebbels de cavilação descarada foi dado aos correspondentes estrangeiros acreditados em Berlim a 10 de novembro de 1938, um dia depois que Hitler deu às suas hordas o sinal para iniciar o saque às lojas de judeus, a demolição de suas propriedades, o incêndio das sinagogas e a prisão de judeus inocentes. No fim daquela manhã fomos chamados ao Ministério da Propaganda, pois o Dr. Goebbels queria fazer uma declaração.

"De repente, com passos rápidos e nervosos, ele entrou e convidou-nos a fazer um semicírculo ao seu redor, e declarou que as histórias que chegaram aos seus ouvidos sobre o suposto saque e destruição de propriedades de judeus são uma mentira suja (sind erstunken und erlogen). Não se tocou num só fio de cabelo judeu (den Juden ist kein Haar geprummt worden).

"Entreolhamo-nos espantados. Em toda a nossa atividade jornalística, jamais víramos coisa semelhante.

"A apenas três minutos da Wilhelmplatz, onde ficava o Ministério da Propaganda, estava a famosa rua comercial de Berlim, a Leipziger Strasse, em cuja extremidade se erguia a 'Wertheim', a conhecida loja de departamentos, com suas grandes vitrinas destruídas e suas famosas exposições transformadas num monte de escombros. Entretanto, Goebbels atrevia-se a dizer-nos que o que tínhamos visto com nossos próprios olhos era 'uma mentira suja'.

"Depois que nos recuperamos da estupefação que a todos deixou paralisados, voltamo-nos para onde se encontrava o Dr. Goebbels com a intenção de lhe fazer algumas perguntas. Valendo-se, porém, daquele momento de embaraço para nós, ele desapareceu, fugindo a explicações muito difíceis.

"O que Goebbels não levou em conta quando deu seu golpe é que, embora reproduzíssemos fielmente suas palavras, para que pudéssemos permanecer em nossos postos na Alemanha, no dia anterior havíamos enviado ao nossos jornais depoimentos de testemunhas oculares do incêndio das sinagogas, do espancamento de judeus, da destruição das vitrinas das lojas de judeus, da corrida dos bandidos pelas ruas aos gritos de Juda Verrecke (Eliminem os Judeus).

"Na noite anterior, minha mulher e eu passamos horas assistindo à obra de destruição dos frenéticos nazistas. Além disso, alguns de nós haviam enviado histórias, pouco antes que Goebbels iniciasse sua entrevista coletiva com a imprensa, dando conta das dificuldades que encontramos para chegar à Wilhelmplatz; escolhendo o caminho e fazendo desvios para não cortar nossos pneus nos cacos de vidro das caríssimas vitrinas que entupiam as principais ruas.

"O efeito da fiel repetição da declaração de Goebbels foi, por isso, muito diferente do que o Ministro da Propaganda de Hitler esperava."

Lochner referia-se à notória "noite das vitrinas quebradas" - ao terrível clímax do pogrom que por mais de cinco anos havia chocado o mundo livre. Era já tão impossível manter em segredo o pogrom quanto os cinco anos de rearmamento da Alemanha. A amena garantia de que a nação estava em franca recuperação econômica, através de um bem elaborado programa de obras públicas", não convencia a ninguém fora do alcance da incansável voz de Goebbels - embora, como veremos adiante, alguns dos que, por covardia, confraternizavam com Hitler evidentemente quisessem ser convencidos.

Não havia dúvidas quanto às obras públicas - as Autobahn, os planos de erradicação de favelas etc. - mas também não havia dúvidas, como diz Shirer, de que "a base real da recuperação da Alemanha era o rearmamento, para o qual o regime nazista dirigiu as energias do mundo dos negócios e da mão-de-obra - a partir de 1934. Toda a economia alemã passou a ser conhecida, no linguajar nazista, como Wehrwirtschaft, ou economia de guerra, deliberadamente projetada para funcionar não só em tempo de guerra, mas também durante o período de preparação da guerra".

De qualquer modo, soava tão ridículo a propaganda oficial de Goebbels apregoar que os objetivos de Hitler eram "inteiramente pacíficas, interessados somente na recuperação econômica do Reich Alemão", como pretender que "não se tocou num só fio de cabelo dos judeus". Em julho de 1934, o Führer tentou um golpe na Áustria, dando ordens para que fosse assassinado o Chanceler Dollfuss - crime que as SS de Himmler cometeram, para mascarar a procedência da ordem, em uniformes austríacos, mas que não conseguiu ser um golpe porque o governo austríaco logo recuperou o controle da ameaçadora situação política.

Fracassado o primeiro ataque, Hitler tornou públicas expressões de profundo pesar pelo cruel assassinato, o qual, naturalmente, atribuiu a traidores austríacos. Mas ninguém que conhecesse o panorama político europeu poderia iludir-se, muito embora a reação internacional fosse tão indecisa e fraca quanto o foi oito meses depois, ao ser anunciada ruidosamente a reconstrução da Força Aérea e da Marinha alemãs e o restabelecimento da convocação para o serviço militar.

A ocupação da Renânia, em março de 1936, foi a primeira demonstração bem sucedida de força de Hitler - força que ele reunira enquanto a Grã-Bretanha e a França assistiam irresolutas, faziam débeis discursos de reprovação e advertência, e imaginando se talvez não fosse melhor permitir que a Alemanha se rearmasse oficialmente. Os freqüentes discursos tranqüilizadores do Führer, sobre paz, razão e conciliação, eram sancionados pelo que expressavam seus termos por alguns dos estadistas mais obtusos que vieram a ser manipulados por Hitler como marionetes. E também por alguns dos mais respeitados jornalistas. Geoffrey Dawson, redator do Times de Londres, deixou de publicar deliberadamente as reportagens perturbadoras que Norman Ebbutt, seu correspondente em Berlim, lhe enviava. Tremendo em suas bem engraxadas botas, ele escreveu ao seu representante em Genebra:

"Noite após noite, tenho feito o que posso para não publicar no jornal qualquer coisa que venha a ferir as suscetibilidades alemães. Não creio que tenha publicado, há meses, o que quer que seja que eles possam considerar injusto."

Não era de surpreender que, com homens como Dawson, Simon (o Secretário das Relações Exteriores britânico), Baldwin e Chamberlain (Primeiros-Ministros na década que precedeu o último conflito), as negativas de Goebbels sobre o rearmamento ganhassem credibilidade. Mesmo quando se transformaram sutilmente em negativas de rearmamento para guerra, os britânicos se deixaram enrolar a tal ponto que permitiram a reconstrução da marinha alemã até "um efetivo de 35% do da Marinha Britânica - acordo sobre o qual nem a França, nem a Itália e nem a Liga das Nações foram consultadas.

Menos de um ano depois de invadir a zona desmilitarizada da Renânia com suas tropas pretensamente inexistentes, Hitler anunciou generosamente ao mundo que a Alemanha retirava sua assinatura do Tratado de Versalhes. Irritadas e ofegantes com a exaustão da descoberta do truque grosseiro que vinha sendo preparado debaixo de seus olhos desde 1933, a Grã-Bretanha e a França continuaram a concertar fúteis acordos diplomáticos que culminaram com a suprema estupidez do "Pacto de Munique", de setembro de 1938.

Apenas seis meses antes de Chamberlain descer cambaleante do avião, agitando no ar o certificado da "paz em nosso tempo", Hitler anexara a Áustria, com sua famosa Diretiva n° 1 rezando o seguinte:

1. Se outras medidas fracassarem, pretendo invadir a Áustria com forças armadas para estabelecer condições constitucionais e impedir outros ultrajes contra a população alemã.

2. Toda a operação será dirigida por mim mesmo.

3. As forças do Exército e da Força Aérea destacadas para esta operação tem de estar prontas para a invasão a 12 de março de 1938, ás 12:00 h o mais tardar.

4. O comportamento das tropas tem de dar a impressão de que não queremos travar guerra contra nossos irmãos austríacos. Portanto, qualquer provocação deve ser evitada. Contudo, se houver resistência, esta tem de ser dominada implacavelmente pela força das armas".

Acontece que a anexação da Áustria foi incruenta, realizada pela infiltração dos quinta-colunas de Hitler no Parlamento austríaco. Quando se realizou um plebiscito, a 10 de abril, a ocupação do país pelas tropas alemães assegurou que os votos fossem praticamente cem por cento favoráveis a Hitler. Nem a Grã-Bretanha nem a França podiam mais alimentar dúvidas quanto aos objetivos fundamentais de Hitler. Porém, continuaram no país da fantasia durante todo o restante de 1938 e os primeiros oito meses de 1939, agitando pedaços de papel, sacudindo guarda-chuvas e protestando através dos seus embaixadores "nos termos mais veementes possíveis" contra as "intoleráveis reivindicações territoriais de Hitler". Quando os Sudetos foram arrancados ao território tcheco-eslovaco e o famoso Corredor transformou-se no pomo da discórdia, com a Polônia resistindo à devolução "legítima ao Reich" de Danzig, os estadistas da França e Grã-Bretanha quedaram-se em inacreditável horror. O palco estava sendo preparado para o último ato e eles nem sequer sabiam seus papéis.


12. DESCE O PANO

Os estadistas aliados talvez não soubessem seus papéis, mas Goebbels certamente sabia o seu. "Aristóteles", comentava ele, por essa época, "diz que é melhor criar uma personalidade adaptável ao seu inimigo e resumir essa personalidade numa única imagem representativa", e Goebbels passou a fazer isso.

Não havia muito o que fazer com Chamberlain, que era tão ineficiente, que não existia como personalidade. Mas Churchill, que se tornou Primeiro-Ministro a 10 de maio de 1940, era vinho de outra pipa. "Em palavras e imagens", instruiu Goebbels aos seus lacaios, "Churchill tem de ser representado como o arquétipo do povo britânico - criatura viciosa e sorridente, com testa de macaco, um dipsomaníaco inventando mentiras, sempre na companhia de plutocratas, judeus, bolchevistas, com os trabalhadores sob seus calcanhares. Deveria também ser ressaltada a sua idade [Churchill tinha 65 anos], o estímulo que dava à guerra para tirar benefício pessoal, sua disposição para aceitar qualquer cargo, em qualquer governo (o que corresponde com a desunião do povo britânico) e seus antecedentes familiares, pai sifilítico, mãe prostituta etc."

Assim, o inimigo foi coletivamente tipificado para o povo alemão. Como Hitler e Goebbels haviam notado, uma curiosidade da propaganda é que, quanto mais vulgarmente apresentada, maior a sua aceitação. A mesma estranheza se constata na subdivisão da propaganda, a publicidade. É fácil convencer a maior parte da população das virtudes de um produto que dá, por exemplo, uma flor de plástico aos que o adquirem, de preferência a um outro qualquer. Sendo assim, nada há de extraordinário no fato de as piadas de Goebbels se terem mostrado tão convincentes e no de, até o fim da guerra, em intensidade sempre crescente, o inimigo da pura, esplêndida, altaneira e poderosa raça alemã ter sido apresentado disfarçado num Churchill ridiculamente deformado.

Também os primeiros acontecimentos da guerra foram ridiculamente destorcidos. O afundamento do Athenia, por exemplo. O Athenia era um navio de passageiros que transportava mil mulheres e crianças que retornavam aos Estados Unidos e foi posto a pique pelo submarino U-30 a 4 de setembro de 1939, na suposição - assim disse o comandante do submarino em seu relatório - que se tratasse de um cruzador armado. Goebbels imediatamente providenciou para que desaparecesse o relatório, afirmando que em verdade "Churchill mandara colocar bombas no navio, satisfazendo simultaneamente, desse modo, sua própria crueldade e dirigindo a ira do mundo para uma Alemanha desumana". Ele apresentou provas de que o Führer puniria com a morte qualquer comandante alemão que atacasse navio de passageiros desarmado. Como o comandante do submarino ainda estava vivo e transmitindo uma versão da história (script de Goebbels, naturalmente) para a nação alemã, a hediondez do crime contido ganhava coloração diferente.

O caso do Ark Royal foi mais difícil de controlar. O porta-aviões foi ligeiramente danificado por um torpedo alemão a 14 de setembro e novamente, pela Luftwaffe, a 26. A imprensa e o rádio alemães comunicaram rápida e triunfalmente que ele fora "totalmente destruído".

Portanto, foi para o alemão desconcertante a descoberta de que ele estava novamente em ação, no Atlântico Sul, duas semanas mais tarde e, em novembro, agentes alemães viram-no, intacto, ancorado na Cidade do Cabo. Numa conferência, Goebbels perguntou ao, oficial-de-ligação naval se podia explicar o que estava acontecendo, que era verdadeiramente embaraçoso.

"Receio que não, Herr Reichminister. O Ark Royal foi afundado pelo Ministério da Propaganda, não por nós."

A conferência em que se deu esse contundente comentário teve lugar a 23 de dezembro, durante uma das reuniões que diariamente se realizavam na Wilhelmplatz, durante toda a guerra. Nessas conferências dava-se corda na máquina de propaganda de Goebbels. A elas compareciam os chefes de departamentos do seu Ministério - imprensa, rádio, cinema, cultura etc. - além de oficiais-de-ligação das forças armadas, Gauleiters das sedes regionais do partido e representantes dos outros Ministérios. O ambiente era ideal para Goebbels; satisfazia-lhe a vocação para o drama, permitia-lhe usar amplamente o cérebro ágil e manipular as palavras com rapidez, além de lhe engordar a vaidade. Willi Boelcke, redator das minutas da conferência que sobreviveram, diz que ali "Goebbels instalou seu posto de comando secreto. Era ali que, dia após dia, ele transmitia ordens verbais para os vários setores da propaganda... Somente ele baixava os decretos, fazia perguntas, elogiava ou censurava, apresentava idéias, entregava-se a monólogos críticos, delineava argumentos e ignorava virtualmente todos os contra-argumentos. Somente ele determinava o que era correto e "de interesse para o povo". Nunca havia uma discussão franca, e muito menos consultas, nem entre colegas... A maioria dos participantes achava mais prudente não fazer perguntas nem expressar dúvidas".

Na conferência de 16 de junho de 1940, Goebbels concebeu um dos mais brilhantes e eficazes golpes de propaganda. "Muito embora a França já esteja realmente derrotada", registra-se que ele tenha dito, "isto ainda não está claro para o leigo... Ela ainda não se sentiu atingida no cerne da sua honra nacional e militar. Contudo, nosso objetivo tem de ser a eliminação da França, de uma vez por todas, como potência de importância na Europa. Em última análise, a Grã-Bretanha só pode ser expulsa do continente e reduzida a uma "Holanda maior" se a França, sua espada continental, for esmagada de uma vez por todas. Por esta razão, a honra e o orgulho nacional da França têm de sofrer um golpe de morte".

O golpe mortal não só foi dramático, mas sobretudo humilhante. Vinte e dois anos antes, a 11 de novembro de 1918, o armistício entre a Alemanha e os Aliados fora assinado no Wagonlit do Marechal Foch, numa clareira da Floresta de Compiègne. Para vingativo deleite de Hitler, Goebbels providenciou a colocação do vagão no mesmo lugar para a apresentação dos termos de armistício alemães. O Führer sentou-se triunfante na mesma cadeira em que Foch se sentou, e os emissários franceses, chefiados pelo General Charles Huntziger, nas cadeiras que os delegados alemães haviam ocupado em 1918, humildes e amargurados.

Isto aconteceu a 21 de junho de 1940. No dia 22, os negociadores franceses, autorizados pelo seu governo, em Bordeaux, assinaram o armistício às 18:50 h.

Quinze minutos depois, o Wagonlit estava sendo retirado por engenheiros alemães, para ser transportado para Berlim, onde milhares de pessoas pagaram alguns pfênigs para fazer reverência ante o altar do triunfo erigido por Hitler. Foi uma das idéias mais produtivas - em termos de dinheiro e moral - concebidas por Goebbels, que não perdeu tempo em explorar o êxito obtido. Hitler passou a senhor de vasta extensão da Europa, do norte da Escandinávia a Bordeaux, no Oeste, e o Rio Bug, no Leste. Goebbels deu ordens a seus propagandistas para que apresentassem a obra de rapinagem como uma união da Europa e cujo único obstáculo à sua complementação eram os britânicos. "Esta semana", anunciou ele na conferência de 23 de junho, "dar-se-á o maior golpe contra Churchill na Grã-Bretanha. Naturalmente ele não poderá resistir. Formar-se-á um governo de conciliação. Estamos bem próximos do fim da guerra". Mas quando os liderados por Churchill, que Goebbels retratou como imorais, bêbados, viciosos, desintegrados, de ancestrais duvidosos e inteligência tacanha, longe de se encolherem sob os tacões hitleristas, ou de se revoltarem contra seu governante, começaram a erguer rudemente dois dedos concordantes, num gesto de desdenhoso desafio, Goebbels deu a sua interpretação ardilosa para o gesto tachando-a de "suscetibilidade imbecil" dos britânicos "à palhaçada e à retórica" de Churchill. "Impossível", dizia ele, "que qualquer nação, por mais desprezível que seja, não se levante contra velhos [Schelm] desgastados, que bebem brandy de manhã à noite, que dormem todas as tardes e se levantam nos fantásticos trajes da segunda infância". Quando Churchill demonstrou, a despeito da opinião de seu médico, Charles Wilson, para quem "ele não se distinguia muito em julgamento, em habilidade administrativa, em conhecimento da natureza humana", ser na liderança dos britânicos bem mais que um velho tolo e bêbado, Goebbels calou a apresentação estranhamente errada do "único inimigo que resta entre a Grande Alemanha e a união triunfal".

A inesperada resistência da Grã-Bretanha no verão do Spitfire de 1940 foi obscurecida pelas fanfarronadas alemães, enquanto Londres era "arrasada" e a Real Força Aérea "reduzida à insignificância". Essa fanfarronada redundou tão embaraçosa quanto a história do Ark Royal e se esvaziou à medida que as perdas da Luftwaffe aumentavam. Lorde Hah-Hah (William Joyce) foi presenteado com uma caixa de charutos "como prova do reconhecimento do Ministro por difundir alarma e desespero durante o verão mais agonizante da Grã-Bretanha". À parte a instrução de que Hah-Hah devia prosseguir com o bom trabalho que estava fazendo através de palestras radiofônicas na ARP, destinado "a incutir o horror na população civil desde o início" a Batalha da Grã-Bretanha foi posta de lado como assunto de discussão na conferência diária. "Não há nada que as massas detestem mais", disse Goebbels desdenhosamente aos seus propagandistas, "do que a ambigüidade, do que serem chamadas a considerar isso e aquilo. Elas pensam de modo primitivo. Adoram generalizar situações complicadas e, das suas generalizações, tirar conclusões claras e firmes". Substituindo desse modo o argumento pela declaração, a Alemanha venceu a Batalha da Grã-Bretanha e ninguém precisa mais incomodar-se com isso.

De qualquer modo, havia coisas mais urgentes do que os britânicos. Aquela raça moribunda poderia ficar tranqüilamente à mercê da poderosa operação invasora de Hitler, a "Leão-Marinho", planejada para o outono (planejada, replanejada e finalmente abandonada).

Mais importante foi a declaração, feita a 3 de setembro de 1940 de que os Estados Unidos haviam concordado em emprestar à Grã-Bretanha 50 destróieres em troca de bases navais nas Índias Ocidentais. Goebbels viu no acordo um passo decisivo para a participação dos Estados Unidos na guerra e começou imediatamente a planejar a aristotélica personalização do novo inimigo.

Por conseguinte, Roosevelt tornou-se o arquético das maquinações capitalistas americanas. "Descobriu-se" que ele tinha ascendentes judeus (sua mãe recebera "secretamente o direito de primogenitura pelo nome de Sara Rosenfeld") e que tinha "desígnios" para a Grã-Bretanha, cuja ilha pretendia usar como trampolim para tomar o resto da Europa e criar "um império mundial do capitalismo americano". Os antepassados judeus de Roosevelt eram tão numerosos quanto as pernas de uma cobra. Trezentos anos antes, seu antepassado mais antigo que se conhece chegou a Nova Amsterdã vindo da Holanda e era luterano. A mãe de Franklin, Sara Delano, nunca esteve mais perto do judaísmo do que seus ancestrais huguenotes, os de la Noyes.

Mas, entretanto, fez-se o molde para o novo Roosevelt. "O Ministro determina que o tema a ser adotado gradativamente seja: "A América judia lutará - se realmente lutar - até o último inglês". É perfeitamente claro o que Roosevelt quer: ele quer tomar a posição de mando dos britânicos no mundo. Ele não tem qualquer intenção séria de fornecer material à Grã-Bretanha, e, mesmo que quisesse, a indústria americana de armamentos não está em condições de fazer isso. Ele só tem um interesse: prolongar a guerra para que o império britânico enfraqueça e permita que os americanos colham seu legado."

Havia uma verdade na imagem que Goebbels começou a projetar durante o inverno de 1940: a indústria americana de armamentos tinha sofrido drástica redução em seu potencial por influência dos numerosos isolacionistas que se haviam decidido pela manutenção do país fora da guerra. Mesmo depois de Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941), Sir Alan Brooke, Chefe do Estado-Maior-Geral Imperial, foi informado pelo Feldmarechal Sir John Dill, seu predecessor: "Nunca vi um país tão despreparado para a guerra e tão indolente". Mesmo assim, a Lei do Empréstimo por Arrendamento foi apresentada por Roosevelt e aprovada pelo Congresso em março de 1941.

Naturalmente, isto deu a Goebbels a oportunidade de golpear o Presidente com chamas de fúria. Roosevelt tornou-se um "louco"; ele e Churchill eram "os grandes embusteiros do povo"; a nação americana era governada "por um plutocrata vítima de uma doença que [havia] desarranjado sua mente, produzindo-lhe ilusões de grandeza que chegavam às raias da megalomania". E à medida que se tornava cada vez mais evidente que os Estados Unidos se uniriam á Grã-Bretanha, a campanha de difamação foi acelerada. Lendo os jornais e ouvindo o rádio alemães, tinha-se a impressão de que o Cavaleiro da Armadura Brilhante, a Alemanha, estava protegendo-se heroicamente do fedor venenoso, das chamas e da crueldade do dragão Roosevelt-Churchill e aguardava apenas o momento certo para atacar e destruir a besta nauseante e libertar o mundo dos horrores do capitalismo, do judaísmo, do sindicalismo, da megalomania, da dipsomania e de outras características desagradáveis da democracia.

A campanha não passava de uma continuação mais barulhenta e menos cômica dos vociferantes ataques de Hitler dirigidos ao mundo na década anterior, fortalecidos pelo choque das armas e abrangidos pelos tentáculos da guerra oral de Goebbels. "Às vezes parecia", escreveu um correspondente americano que esteve em Berlim até o momento de Pearl Harbor, "que Goebbels ultrapassava o palco onde estava para nos conduzir pelas orelhas: ele martelava declarações incríveis na nossa mente e já estávamos muito próximos de considerá-las críveis. Todos procuramos manter a razão, mas não há dúvida quanto à validade da afirmação de Hitler, quando assegurava que a mentira gritada muitas vezes, bem alto, ganha na opinião do povo características de verdade.

É certo que houve oportunidades para Goebbels propagandear vantagens mais ou menos verdadeiras. Com referência à Batalha do Atlântico, por exemplo. De 1941 a 1943, as perdas aliadas em navios mercantes atingiram proporções desastrosas, e a cada minuto, todos os dias, os alemães ouviam afirmações triunfantes. À medida que a produção americana de armamentos acelerava, declarou-se alegremente: "A colossal produção do grande parque industrial americano não aterroriza o povo germânico, pois tudo aquilo graças à atividade dos submarinos alemães, jamais chegará ao local da operação". Certamente era um exagero, mas inconfortavelmente perto da verdade. Grande quantidade de material realmente se perdeu, graças à habilidade dos comandantes de submarinos, reunidos em "alcatéias" contra os comboios. E quando Goebbels fez uma transmissão radiofônica pessoal, em que se referiu aos navios mercantes Aliados: "Sua tonelagem, o trunfo mais importante que possuía para sustentar a guerra, estava diminuindo, diariamente, com rapidez aterradora", ele foi perfeitamente correto.

Já então - a transmissão foi feita a 3 de maio de 1942 - a campanha na Frente Oriental estava sendo travada há quase um ano e colocou Goebbels diante de um problema para o qual ele não encontrava a solução. Era impossível ocultar o fato de que o inverno causara sofrimentos enormes aos exércitos germânicos, detendo-os em toda a frente. Repetia-se Moscou em 1812. Os pedidos de agasalhos e material de inverno para as tropas não podiam de modo algum ser transformados em histórias de êxitos. Trombetearam e exaustivamente uma reviravolta completa nos campos de batalha da Rússia quando Hitler assumiu o comando da campanha, em fins de 1941. Ele era "o maior gênio militar da História" e a vitória-relâmpago viria com o verão. Não aconteceu vitória-relâmpago nem de qualquer outro tipo e o mal-estar de Goebbels foi revelado numa carta que escreveu para sua mulher, Magda, em setembro de 1942:

"Os problemas que a guerra com a Rússia levanta são de arrasar os nervos, que o diabo a leve! Preciso de uma figura heróica para apresentar ao povo que não seja o Führer, que tem de permanecer acima disto tudo pelo próprio fato de ser o Führer."

Ele encontraria essa figura e a descoberta o ajudaria a evitar as situações mais difíceis da campanha russa. Mas havia situações igualmente difíceis na sua vida particular e com as quais estava tendo de lidar continuamente, muito embora fossem criadas unicamente por ele.

O seu casamento deu-se a 12 de dezembro de 1931. O primeiro dos filhos nasceu-lhe nove meses depois e os outros vieram a intervalos breves. (Nunca transcorreram mais que apenas alguns meses entre um e outro período de gravidez de Magda; o último dos filhos nasceu em outubro de 1940). Apenas um deles foi um menino que, durante sua breve existência, revelou ser uma criança bastante obtusa. Mas a vaidade de Goebbels foi lisonjeada quando Hitler lhe disse que "um gênio só deveria ter filhas; um filho seria eclipsado pelo pai".

Goebbels pôs a culpa da obtusidade do filho e da elevada proporção de filhas "na natureza fria e rancorosa" de Magda. E Magda tinha muitas razões para ser assim.

Como Prang observou, certa vez, com uma ligeira confusão de tendências biológicas, Goebbels estava sempre excitado sexualmente. Registraram-se breves casos com suas secretárias e astros menores do mundo da publicidade com o qual estava estreitamente ligado. Suas eventuais companheiras de leito afirmavam que ele era um amante eficiente. Ele também negou acaloradamente, quando Magda o descobriu na cama com uma das suas convidadas, que jamais tivesse concordado em santificar o casamento com a abstinência. Goebbels era incapaz de atravessar em inatividade sexual o período de abstinência imposto pela gravidez. Magda, que na vigência do casamento com Quandt prevaricou muito, encarava romanticamente o seu casamento com o Ministro da Propaganda e sentia-se humilhada com o fato de ele passar de uma cama para outra com tanta facilidade. Além disso, com a aproximação da guerra e durante o seu desenrolar, havia sempre uma lista de espera de pequenas atrizes e mulheres jornalistas dispostas a suborná-lo com seu corpo em troca de algum favor.

"Isto", disse a Magda cruamente, "faz parte do trabalho que devo desenvolver pela Alemanha e pelo Führer".

Magda resolveu então que, se seu marido podia enganá-la, ela podia fazer o mesmo, e começou um caso amoroso com um oficial-de-ligação norueguês e ameaçou divorciar-se. Goebbels ficou alarmado; o casamento do Ministro devia ser um exemplo para todos; e se o número de vezes que apareciam juntos em público pudesse servir de elemento de aferição, o seu casamento era realmente um sucesso. Houve a reconciliação, que não durou muito, pois Goebbels então tomou como amante a atriz do cinema tcheco Lida Barova, com quem passou a viver sem mesmo se incomodar em retornar a casa, para Magda e os filhos. Era impossível manter secreta a ligação e o escândalo público resultante enfureceu Hitler. Ele ameaçou Goebbels com a exoneração do ministério e com a transferência para Tóquio, como um diplomata secundário. Goebbels estava tão caído por Lida, que nem a ameaça de remoção, nem a mágoa causada à sua colossal vaidade tiveram efeito. Ele disse a Hitler que iria para Tóquio de bom grado se pudesse divorciar-se e levar Lida consigo.

Hitler recusou-se a consentir nisso. Seria politicamente insensato fazer tal substituição na época, como insensato seria também admitir que a publicidade em torno do processo de divórcio impopularizasse mais o ministro.

(Ele já era amplamente, ainda que sub-repticiamente, conhecido como "o girino - só tem boca e cauda" - uma piada que dependia da palavra Schwanz, que significa cauda e também, vulgarmente, pênis.)

Com o envio de Lida a Praga, por ordem de Hitler, escoltada por dois agentes da Gestapo, e com a censura de seu telefone e de sua correspondência, reabilitou-se o casamento de Goebbels e Magda. Hitler recebeu publicidade como o grande salvador das famílias. As fotografias publicadas no Berliner Illustrierte Zeitung eram revoltantemente piegas, mostrando um Hitler sorrindo viscosamente, reconciliando o casal depois de "pequenas tempestades". Goebbels e Magda passaram a ser vistos novamente em público, e com tal freqüência, que abafaram os boatos de que estavam virtualmente separados e de que Magda arranjara discretamente outro amante, um tal de Karl Hanke, enquanto que Goebbels continuava sua procura insaciável de mulheres, porém de modo mais calmo. A babá das crianças escreveu, mais tarde, que "Para o observador casual, era um lar muito bem organizado, com crianças saudáveis, bem comportadas e pais amorosos. Na realidade, porém, a família estava-se desintegrando, a atmosfera doméstica era opressiva e, em última análise, intolerável. Temíamos diariamente que uma catástrofe se abatesse sobre nós".

Catástrofe de natureza menos doméstica se abateu prodigamente sobre os exércitos alemães, na frente russa, durante 1942. Foi então que Goebbels encontrou o substituto heróico para o Führer, substituto que inflamaria a imaginação do público alemão.

O General Erwin Rommel tivera algumas boas oportunidades nos primeiros meses da batalha da França, quando apareceu como um gênio da guerra blindada. Ele tinha outras qualidades que o indicavam para o papel de herói público: seus antecedentes não eram aristocráticos, como sucedia com tantos generais da Reichswehr, e não só planejava os ataques como também os dirigia pessoalmente.

E os dirigia de maneira extremamente eficaz - para considerável embaraço do Ministério da Guerra britânico, que estava recebendo relatórios sombrios do teatro de guerra da África do Norte. Churchill encontrara um bode expiatório em Auchinleck, mas encontrar bodes expiatórios nada obstava aos avanços dos exércitos panzer, que ameaçavam empurrar as forças aliadas para o mar. Além disso, os próprios britânicos começavam a ter grande respeito por Rommel, cujas táticas só podiam ser admiradas, que superava seus adversários com arrojo e tinha sob seu comando a nata das forças blindadas.

Rommel foi imensamente valioso para Goebbels. Do ponto de vista da propaganda, ele era uma jóia esplendorosa em ruas cheias de escombros - literalmente, ruas cheias de escombros porque as forças aéreas aliadas haviam iniciado ataques devastadores contra importantes cidades alemães. Os relatos a respeito eram relegados aos cantos melo escondidos dos jornais, enquanto que as páginas principais se enchiam com notícias do heroísmo e do gênio das forças do deserto. Mudando-se, porém, os tempos, quando as batalhas de Alamein fizeram Rommel recuar, tornou-se virtualmente impossível apresentar os fatos senão como fatos.

Nada podia ocultar que piorava a situação dos alemães na Frente Oriental, que Montgomery começava a bater forte e a mudança de rumo no Extremo Oriente, após a Batalha de Midway. Com a vitória no deserto, com os desembarques na costa norte-africana e com a grande batalha diante de Leningrado, aproximava-se o momento decisivo da guerra. Goebbels viu-se obrigado a censurar seu pessoal dos jornais e do rádio por desorientar o povo - especificamente no caso da vitória aliada em Tobruk, a qual eles transmitiram da seguinte maneira, a 14 de novembro: "As tropas alemãs e italianas evacuaram Tobruk segundo os planos, após a destruição de todas as instalações militares".

Na conferência do dia, "o Ministro... observa... que o moral do povo alemão já está bem baixo e que a liderança não deve reduzi-lo ainda mais, abusando da confiança do povo".

E continuou-se a abusar da confiança do povo. (Naturalmente, é impossível travar uma guerra com o povo confiando completamente nos generais: mas há graus de engano justificáveis.) Goebbels emitiu uma diretiva que dizia: "Devemos neutralizar novamente e negar de maneira resoluta os números astronômicos publicados pelos bolchevistas sobre nossas baixas na luta em Stalingrado". Todo o 6° Exército alemão, comandado por Paulus, e parte do 4o Exército Panzer estavam cercados. As baixas sofridas pelo Eixo atingiriam a cerca de meio milhão de homens. Mas somente dois meses depois, em janeiro de 1943, é que Goebbels faria um comunicado escrito, e de maneira atenuada: "Na área de Stalingrado, nossas tropas, que há algumas semanas estão empenhadas em heróica luta defensiva contra um inimigo que ataca por todos os lados, continuaram a repelir ontem os poderosos ataques da infantaria e das formações blindadas inimigas, com pesadas baixas para os bolchevistas. Desse modo, comandantes e soldados deram, mais uma vez, brilhante exemplo do heróico espírito de bravura alemão". Duas semanas depois Paulus rendeu-se e teve início uma retirada geral na frente oriental. No resto daquele ano só haveria as grandes batalhas da Curva do Dnieper. Em fins de fevereiro de 1944 já a costa do Báltico estava desimpedida; e pouco mais de três meses depois teve início a invasão da Europa ocupada. Foi uma época espinhosa para Goebbels.

A 8 de setembro de 1943, a Itália capitulou, registrando-se esse verdadeiro desastre político no pior momento possível para a Alemanha. "O bloco anglo-americano não pode parar de exultar com a inversão da situação de 1940, quando a França caiu." A capitulação da Itália só podia ser atribuída ao "traidor Rei da Itália, que apunhalou pelas costas o aliado alemão". Goebbels não tinha outro argumento para usar até que Mussolini foi salvo, por pára-quedistas alemães, da prisão para onde fora mandado pelo governo Badoglio e colocado à frente de um governo títere instalado no norte da Itália, ainda ocupado por tropas germânicas. Ele valeu-se do salvamento para transfundir ânimo no moral do povo. "Do ponto de vista do moral popular, o salvamento de Mussolini foi tratado de modo a dar a impressão de uma batalha vitoriosa", observou em suas memórias o comentarista oficial militar alemão, General Kurt Dittman. Mas não foi uma vitória: foi simplesmente uma providência destinada a neutralizar o efeito dos desastres que vinham ocorrendo e dos que estavam iminentes.

Naturalmente, o Serviço de Inteligência alemão sabia que estava em planejamento a invasão, mas não sabia ao certo o local em que se verificaria. O Serviço de Inteligência britânico desorientara deliberadamente o Alto Comando Alemão quanto ao local do principal peso do ataque e quanto à Ordem de Batalha Aliada. O logro foi muito bem sucedido. Embora impossível a ocultação do fato de que o ataque seria desfechado na área geral de Cherbourg-Dunquerque, a incerteza sobre se ele ocorreria na parte leste ou oeste daquela ampla faixa de costa e se haveria ataques simulados, confundiu consideravelmente os planos defensivos alemães.

Em sua propaganda, Goebbels adotou o blefe da indiferença e da ameaça de novas armas, de grande poder de devastação, "para reduzir Londres a cinzas" à medida que se tornava cada vez mais certo que o verão de 1944 traria consigo o ponto culminante da guerra. Ele mandou fazer transmissões para a Grã-Bretanha, destinadas a solapar a confiança no sucesso da invasão: "Só estamos esperando que vocês cheguem aqui! Então lhes faremos uma recepção que jamais esquecerão! Não pode haver defesa ou aviso contra nossa nova arma, que jogará Londres no chão enquanto suas forças invasoras estiverem sendo obliteradas nos locais de desembarque que vocês acreditam ser tão secretos".

Às 04:00 h de 6 de junho, ele foi despertado com os primeiros informes dos desembarques Aliados. "Graças a Deus eles finalmente chegaram!" exclamou ele para seu criado de quarto. "Agora começa o último assalto!"

Embora não pudesse fazer muita coisa para difundir a crença de que a invasão Aliada era um fracasso, já que os ataques, culminando com a penetração em Avranches, deixaram indiscutivelmente claro que foram um sucesso, ele recorreu à insinuação velada: "Não quero discutir o fato de que o inimigo conseguiu alguns êxitos iniciais. Contudo, posso muito bem imaginar - embora não queira afirmá-lo claramente - que nossa estratégia admite uma penetração maciça do inimigo no continente para, desse modo, infligir-lhe uma derrota decisiva". Embora Goebbels não percebesse nada de estratégia e todos soubessem disso, a insinuação sutil de que ele tinha informações bem fundadas foi eficaz. E ele acentuou o feito com energia. Os informes oficiais deixavam transparecer que os exércitos aliados estavam recebendo a corda com que se enforcariam, que, tão logo estivessem refestelados na França, o nó seria apertado. As tropas foram informadas disso por meio de panfletos singularmente tolos. Eram escritos de maneira tosca e a grafia era pior ainda, certamente por pensarem que o soldado britânico ainda se considerava um Tommy e o marinheiro um Jolly Jack Tar - apelidos que haviam desaparecido com a guerra do Kaiser; supunham que ele se retrairia pela ameaça subentendida:

"Tommy! Você acha que Gerry lhe permitiria penetrar tanto, se não tivesse planos para rechaçá-lo quando chegar a hora? Você sentiu a urgência na atmosfera e no fundo sabe que a vingança está próxima. Renda-se agora, antes que sua mulher e sua namorada não possam mais aguardar a sua volta."

Havia outros papéis que falavam dos perigos que ameaçavam os entes queridos que haviam ficado em casa:

"Seus oficiais não lhe disseram nada sobre a arma secreta do Gerry que está bombardeando dia e noite as casas e os castelos de sua pátria e que neste exato momento pode ter arrasado seu lar, com seus entes queridos dentro? O Alto Comando Alemão não é tão ingênuo quanto você pensa. A invasão já fracassou. Você jamais chegará ao solo alemão! Espere e verá!"

Outros panfletos se concentravam na pornografia grosseira. Sefton Delmer, o jornalista britânico que foi transferido para o Departamento de Inteligência Política do Ministério das Relações Exteriores durante a guerra, diz-nos que na França, em 1939, "um risonho tenente francês" lhe mostrou uma das tentativas de Goebbels de desmoralizar as tropas francesas. "Ela consistia de um pequeno retrato, impresso em papel muito fino, mostrando um soldado francês cumprindo seu dever na frente de batalha. Mas quando se colocava esse retrato contra a luz, a cena mudava completamente. No lugar do bravo poilu, via-se, com todos os detalhes, um soldado britânico fornicando com o que a legenda chamava de a noiva do francês." A tentativa foi bem sucedida, pois intensificou uma situação de desmoralização que já existia; mas a repetição do golpe fracassou, quando dirigido ao soldado britânico de invasão. Neste caso, o cérebro que bolou a trama colocou um pracinha americano fornicando, segundo a legenda, com a namorada de um inglês.

A arma secreta citada era, naturalmente, o avião sem piloto que o próprio Goebbels batizara de "a arma da vingança [Vergeltung]". A primeira dessas bombas-voadoras foi lançada nove dias após o Dia "D", a 15 de junho, e os primeiros foguetes fizeram as suas devastadoras parábolas a 8 de setembro. Visavam os nazistas, com tais armas, tanto à desmoralização quanto à destruição; mas os sucessos Aliados nos arredores de Caen e na França Ocidental, no Extremo Oriente (onde as tentativas que os japoneses fizeram de invadir a Índia foram repelidas na batalha de Imphal), e na Frente Oriental, onde o avanço russo até a Polônia e o levante da resistência em Varsóvia haviam dizimado o que restava dos exércitos alemães, foram como goles de vinho tonificante para um povo que havia sofrido calamidade atrás de calamidade até o ano decisivo de 1942. Era impossível a mais leve sombra de desmoralização. A "arma secreta" chegou tarde demais para vingar-se. O avanço de cinco dias do 2o Exército de Montgomery, desde o Sena até Antuérpia, havia levado de vencida todos os locais de lançamento no Passo de Calais, e os ataques realizados por bombardeiros pesados aos centros de produção reduziram seriamente as quantidades fabricadas. Muita destruição foi causada (mais de um milhão de casas foram destruídas ou danificadas) e as baixas entre civis foram numerosas, mas nada podia ocultar o fato de que a Alemanha estava sendo submetida a um verdadeiro processo - de esmagamento pelos Aliados. E, embora houvesse reveses - os desembarques aeroterrestres em Arnhem e o ataque final de Hitler nas Ardenas foram exemplos disso - a situação na Grã-Bretanha foi aliviada, em todos os sentidos, inclusive pela notícia do atentado contra a vida de Hitler, a 20 de julho, e pela suspensão do black-out. Para Goebbels, não tendo mais cabida a propaganda, tudo terminado. Com os exércitos aliados nas fronteiras alemães, nada justificava qualquer tentativa de convencimento de que havia esperanças e muito menos possibilidades de triunfo. Mas, houve uma medida que lhe aumentou ainda mais o poder pessoal. No dia seguinte ao atentado em Rastenburg (20 de julho), Hitler conferiu-lhe o titulo de Diretor do Reich para Guerra Total.

Ele disse numa transmissão radiofônica: "Ontem o Führer baixou uma ordem, publicada hoje pela imprensa, determinando uma reformulação dos órgãos do Estado, ferrovias, correios, instituições públicas em geral, as organizações e empresas particulares, com vistas a liberar o maior número de homens para a indústria de armamentos e para as Forças Armadas, através de um emprego ainda mais racional dos que agora servem nas mencionadas empresas, eliminando ou diminuindo as tarefas menos importantes para o esforço de guerra, e através de uma simplificação da organização e dos procedimentos. Também de acordo com essa ordem, toda a vida pública tem de ser adaptada, em todos os aspectos, às necessidades da guerra total. A atividades públicas têm de se conformar com os objetivos da guerra total e, em particular, não podem tirar ninguém das forças armadas nem da indústria de armamentos; numa palavra, a guerra total está em prática. A orientação dessa gigantesca reforma cabe ao Curador do Reich para a Guerra Total, que para se desincumbir da missão receberá do Führer amplos poderes. A pedido do Marechal do Reich, o Führer confiou-me essa tarefa e nomeou-me Curador do Reich para a Guerra Total"
A primeira "medida prática" foi chamar às contas os conspiradores do complô de Rastenburg. Eles atingiram a casa dos milhares, pois os arquivos de Himmler foram cuidadosamente examinados em busca dos que tivessem, em qualquer momento, deixado margem à mais leve suspeita de envolvimento. Todos foram assassinados ou mandados para campos de concentração sem julgamento. Mas os participantes mais importantes da conspiração tinham de ser transformados em exemplo. Somente Rommel, um dos envolvidos, teve permissão de cometer suicídio para escapar ao julgamento. Os oito líderes da conspiração foram surrados, torturados, submetidos a um arremedo de julgamento e enforcados em cordas de piano amarradas em ganchos de carne, sendo o garroteamento bem prolongado, para infligir o máximo de dor.

Terminados seus dias de propagandista, Goebbels transformou em válvulas de escape a maldade e a profecia sombria. Sua maldade, exemplificada na carnificina que promoveu entre os pretensos atacantes do Führer, foi uma demonstração da capacidade que tinha de se mutifacetar. O talento natural que possuía para deturpar a mente do povo transmudou-se em talento para torcer corpos. Quanto às suas profecias sombrias, elas tomaram a forma de negativas de que ainda houvesse flechas na aljava alemã. "Não nos enganemos", disse ele na conferência da manhã de 29 de novembro de 1944, "não nos resta nada. Não existem armas miraculosas!"
Era o reconhecimento da falência da sua própria propaganda. Desde a invasão, ele vinha berrando por todos os meios ao seu alcance, que a situação seria salva pelas armas miraculosas, pela brilhante estratégia do Führer, pelo heroísmo das forças alemães e pela implacável resistência do povo germânico contra as "hordas bolchevistas" que avançavam. Depois das V-1 e V-2 não houve surpresas em armas; o valor das forças alemães foi superado pelo simples peso dos números; a estratégia do Führer era tão louca quanto ele próprio; e a ameaça das hordas bolchevistas que se aproximavam fazia com que a população das cidades por onde deveriam passar arrumassem seus pertences e fugissem, bloqueando as estradas para tropas e suprimentos.
Apesar do desespero com que encarava o futuro, Goebbels conseguiu animar um pouco o perdido entusiasmo quando a batalha das Ardenas foi travada, no Natal de 1944. Ele arengou que o inimigo teve de abandonar todos os planos de ataque diante da arremetida dos exércitos alemães. Anunciou alegre que o Comandante do 47° Corpo Blindado alemão exigira a rendição da Bastogne e que o final vitorioso da campanha das Ardenas estava próximo. (Ele não acrescentara que o comandante americano dos defensores da Bastogne havia respondido, com vigor, com uma única palavra: "Nuts!") Realmente, o fim estava próximo - da campanha das Ardenas e de tudo o mais; mas não com a vitória das forças nazistas. Os berros de alegria de Goebbels transformaram-se em resmungos de possível concordância entre a Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha numa luta unida contra o Terror Vermelho do Bolchevismo. Se podia acreditar em tal fantasia, ele podia acreditar em qualquer coisa - inclusive na possibilidade de um movimento de resistência da ralé da cidade, chamado "Os Lobisomens", para defender Berlim até a última trincheira.
Não havia nada mais que uma defesa simbólica de Berlim. A 22 de abril de 1945, as tropas russas entraram nos subúrbios norte da cidade. Hitler estava em seu abrigo subterrâneo, na Chancelaria, tendo acessos de fúria e ditando comunicados radiofônicos dirigidos ao povo, afirmando que o Führer ficaria em Berlim e morreria com o povo, se necessário. Ele então mandou chamar Goebbels, Magda e seus filhos, certo de que eram os únicos seguidores que ficariam na sua companhia até o fim - "Tudo o mais é traição, corrupção, mentira e covardia". Ele tinha boas razões para a explosão. Goering estava em Obersalzburg, aguardando a ordem para assumir a liderança do Reich e Himmler estava em Lübeck, cooperando secretamente com o Conde Bernadotte para apresentar uma nota de rendição ao General Eisenhower, contanto que ele, Himmler, recebesse poderes ditatoriais. Goebbels veio imediatamente, trazendo Magda e as crianças. Durante seis dias eles permaneceram com Hitler e sua amante, Eva Braun, enquanto os russos cercavam a cidade e as bombas caíam sobre a Chancelaria. Na manhã de domingo, 29 de abril, ele foi convocado para a tarefa macabra de ser padrinho do casamento do Führer. Imediatamente após a cerimônia, ele o nomeou Chanceler designado do Terceiro Reich por decreto (Goering, Himmler e Ribbentrop sendo eliminados como traidores) e ordenou-lhe que deixasse Berlim, com sua família, enquanto - segundo se pensava - havia tempo.

Mas Goebbels negou a si mesmo, e à sua família, a pequena possibilidade de fuga. 

Assim fazendo, provou o seu amor fanático pelo Führer.

E TERMINOU TUDO COMO TODO MUNDO JÁ SABE!


FONTE
http://www.segundaguerramundial.com.br/wrapper.php?idLink=309


OS ONZE PRINCIPIOS DE GOEBELLS

(Luiz Nassif)

Conhece Joseph Goebbels, o violento ministro de propaganda de Hitler?
Estes são os 11 princípios que levaram o povo alemão a tentar exterminar à humanidade:
1.- Principio da simplificação e do inimigo único.
Simplifique não diversifique, escolha um inimigo por vez. Ignore o que os outros fazem concentre-se em um até acabar com ele.
2.-Princípio do contágio
Divulgue a capacidade de contágio que este inimigo tem.  Colocar um antes perfeito e mostrar como o presente e o futuro estão sendo contaminados por este inimigo.
3.-Princípio da Transposição
Transladar todos os males sociais a este inimigo.
4.-Princípio da Exageração e desfiguração
Exagerar as más noticias até desfigurá-las transformando um delito em mil delitos criando assim um clima de profunda insegurança e temor. “O que nos acontecerá?”
5.-Princípio da Vulgarização
Transforma tudo numa coisa torpe e de má índole. As ações do inimigo são vulgares, ordinárias, fáceis de descobrir.
6.-Princípio da Orquestração
Fazer ressonar os boatos até se transformarem em noticias sendo estas replicadas pela “imprensa  oficial’.
7.-Principio da Renovação
Sempre há que bombardear com novas notícias (sobre o inimigo escolhido) para que o receptor não tenha tempo de pensar, pois está sufocado por elas.
8.-Princípio do Verossímil
Discutir a informação com diversas interpretações de especialistas, mas todas em contra do inimigo escolhido. O objetivo deste debate é que o receptor, não perceba que o assunto interpretado não é verdadeiro.
9.-Principio do Silêncio.
Ocultar toda a informação que não seja conveniente.
10.-Principio da Transferência
Potencializar um fato presente com um fato passado. Sempre que se noticia um fato se acresce com um fato que tenha acontecido antes
11.-Princípio de Unanimidade
Busca convergência em assuntos de interesse geral  apoderando-se do sentimento  produzido por estes e colocá-los em contra do inimigo escolhido.
Qualquer semelhança com as práticas do PIG é pura coincidência....

Não é preciso ir à Alemanha de Goebbels para encontrar estes princípios, muitos deles  foram extraídos da História do Império Romano e chegaram ao Brasil com os colonos portugueses:

1.- Principio da simplificação e do inimigo único.

Os romanos chamavam de "bárbaros" todos os povos que viviam nas "terras incógnitas" (além das fronteiras). Eles eram desprezados e, desde Políbio, deveriam ser civilizados, romanizados por Roma.

Cá chegaram uns colonos portugueses que descendiam de tribos lusitanas reduzidas à submissão por Roma que foram se misturando aos soldados romanos enviados para a Lusitânia. Eles tratavam centenas de povos por "índios", muito embora não estivessem na Índia. Os costumes destes povos eram desprezados, as diferenças entre eles eram irrelevantes.


"Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta." Nelson Rodrigues.



Pesquisa:
Karlão-Sam.






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